Cestvs: The Roman Fighter #1 e #2 | O custo da liberdade

Cestvs: The Roman Fighter #1 e #2 | O custo da liberdade

Mais um anime da temporada para escrever e eu não consegui pensar numa introdução legal para o texto (como sempre).
Vamos lá!

Bom, vai ser meio difícil explicar como meus sentimentos sobre esse anime são conflitantes porque, de fato, ele é ruim. Ele tem diversos defeitos que vou me aprofundar melhor durante o texto, mas que dificultam bastante a nossa imersão enquanto assistimos. Enfim, a premissa do anime é a seguinte: somos apresentados a Cestvs, um escravo do Império Romano que deve lutar sob as ordens do império em exibições de pugilismo para entretenimento do povo. Com a promessa de conquistar a liberdade após vencer cem lutas, porém sabendo que se perder qualquer uma delas será sentenciado a morte, Cestvs precisa aprender a sobreviver com o peso de se sentir responsável pela morte dos outros lutadores, enquanto caminha em busca de sua liberdade.

Olhando assim é bem óbvio que se trata de um clichê, o que não quer dizer nada se a história for bem trabalhada, afinal o que importa não é como a narrativa é concebida e sim como é executada. O problema é que a direção não contribui em nada nesse aspecto. Em dois episódios já temos: um pouco do cotidiano do Cestvs; a morte do único escravo que parecia se importar com ele na primeira prisão mostrada no anime; a promessa de liberdade; a primeira luta na arena; um princípio de relacionamento entre ele, Nero e Ruska; a casa de seu dono sendo queimada e ele acaba sendo vendido para outro senhor de escravos onde forma um grupo de outros lutadores escravos. É muita coisa para dois episódios de vinte minutos cada, e olha que só estou citando tudo que envolve diretamente o personagem principal sendo que boa parte disso nem foi mostrado, usaram um timeskip já no segundo episódio, então acaba sendo tanta informação pra absorver que não dá pra criar qualquer apego a esses personagens, afinal como vou me importar com eles se nem os roteiristas parecem se importar, visto que nem se interessam em contar direito sua história?

Desculpa mas eu não me importo com você, surgindo do nada.

Não temos muito o que falar dos personagens por enquanto porque eles não são nada cativantes, inclusive alguns deles chegam a ser bem irritantes como o próprio protagonista ou o Nero, mas mesmo em meio a tanta coisa feita de maneira preguiçosa, alguns detalhes me chamaram a atenção, certos temas que a trama se propõe a pelo menos citar que eu gostaria bastante de ver sendo melhor trabalhado durante a obra, que com certeza melhoraria a experiência de assistir esse anime. O conceito de liberdade apresentado se mostrou bem amplo e aplicável a qualquer um dos três personagens principais, pois todos buscam a sua liberdade, e isso fica bem claro em dois momentos. O primeiro quando eles estão conversando sobre por qual motivo lutam, e quando Cestvs diz que luta por sua liberdade, Nero o responde dizendo que a verdadeira liberdade é algo impossível de alcançar pois ela sempre estará condicionada a algo, seja o ambiente que você vive, as pessoas que o cercam ou até mesmo os caprichos divinos. Sempre teremos algo para nos escravizar, e para Cestvs é chocante ouvir aquilo do imperador de Roma, o homem que deveria poder fazer literalmente qualquer coisa que quisesse, mas que está sendo mantido como um fantoche nas mãos da própria mãe, que tenta usar da posição do filho para governar através dele. Por outro lado, vemos Ruska dizendo lutar para ser um soldado mais forte no futuro, porém a verdade é que ele não consegue se ver livre do pai, que quer condicionar o filho a ser um grande guerreiro implacável e sem compaixão. No meio disso está Cestvs, o verdadeiro escravo literal da situação, apenas buscando uma vida livre. Mas o que vem depois?

Esse é o segundo momento que vemos isso sendo trabalhado, quando Cestvs se pega pensando sobre o que fará quando for livre, o que viria depois disso, qual seria o seu propósito de vida depois de toda essa luta. É interessante pensar sobre isso, no momento que vi essa cena lembrei do Coringa no filme Cavaleiro das Trevas, quando ele diz que é como um cachorro correndo atrás de um carro e que não saberia o que fazer se o alcançasse, e esse é um bom paralelo para aqueles momentos que todos temos quando estamos em uma zona de conforto que nos incomoda mas que sabemos sempre o dia de amanhã, e por isso ficamos com medo de sair dessa zona e tentar algo novo por não ter ideia do que nos espera no futuro. É um dilema muito bacana de trabalhar com um personagem como esse, que está sempre relutante na forma como sua vida é violenta, nós poderíamos ver como ele vai confrontar sua aversão a brutalidade das lutas com a tensão de não poder falhar e acabar morrendo em consequência de uma derrota, ou como ele lida com outros lutadores extremamente focados em melhorar para continuar sobrevivendo, como por exemplo o Emden e sua dedicação exaustiva aos treinos, que não estarão dispostos a mostrar a compaixão que ele demonstra pelas pessoas. Enfim, diversas vertentes que, se os roteiristas estiverem minimamente dispostos, podem render uma excelente história.

Eu meio que fiz um exercício de imaginação nos parágrafos anteriores, mas algo que com certeza deve acontecer é a mudança gradativa de Nero entre deixar de ser uma criança pura e benevolente e se tornar um tirano megalomaníaco. Em algum momento, o fato do anime ter um contexto histórico deve se justificar, mostrando alguma função narrativa além de ser somente um plano de fundo para poder fazer uma história sobre gladiadores pugilistas, então podemos esperar que ele se torne um vilão com o passar do tempo, já que historicamente falando Nero foi um dos mais cruéis imperadores de Roma, então seria um desperdício não utilizar o personagem dessa maneira. Tá certo que algumas coisas atribuídas a ele sejam hoje discutidas como um possível exagero como tentativa de demonizar o imperador, mas é um consenso entre os especialistas no assunto de que ele realmente mandou matar a própria mãe e se aproveitou de um grande incêndio em Roma para reconstruir a cidade a sua vontade e ainda culpar os cristãos pelo ocorrido, aumentando as perseguições a eles. Sério, não dá pra acreditar que ele vai ser esse poço de gentileza que foi mostrado até o fim da obra.

Vê se não parece uma cutscene de um jogo?

Como falei no inicio do texto, o anime é ruim, pelo menos por enquanto. O ritmo da narrativa é uma bagunça, onde pontos importantes não recebem o devido tempo de tela e tudo acaba sendo muito raso, por conta disso é impossível se apegar aos personagens e criar alguma simpatia por eles pois não recebem o tempo de tela necessário, a trilha sonora não é nada demais e a animação com uma mistura de 2D com 3D não faz o menor sentido, o 3D do anime só existe para quebrar o clima enquanto assistimos, me lembrou bastante os jogos de Naruto no PlayStation (o que faz sentido, ambos são produzidos pela Bandai). O que me dá esperança e me faz querer continuar assistindo é a quantidade de bons questionamentos deixados no ar, prontos para serem melhor aprofundados com o passar dos episódios, o que acho que poderia realmente salvar a obra.

E vocês, o que acharam desse começo do anime? digam nos comentários o que pensaram sobre tudo isso, a opinião de vocês é muito importante!
Até semana que vem!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?