Crítica | Harry Potter e a Pedra Filosofal – J.K. Rowling

Crítica | Harry Potter e a Pedra Filosofal – J.K. Rowling
Falar sobre a história d’O Menino Que Sobreviveu em tempos como esse é um pouco… perigoso. Não só a saga teve muito de seus ensinamentos esquecidos e até mesmo distorcidos, mas também a autora caiu numa rede de cancelamento cultural pelos twitteiros, em sua maioria desocupados, o que, é claro, fez com que qualquer elogio seja para a saga ou para qualquer outra coisa relacionada se tornasse o mesmo que andar num campo minado. Só troque as bombas por comentários alertando sua ruína digital, e com uma fancam em baixo. Se Harry Potter fosse lançado nos dias de hoje, seria cancelado nos primeiros dez minutos por alguém que não teria visto ou lido a obra toda ao presenciar os maus tratos de Tio Valter e Tia Petúnia.

Mas deixando essa temática pro final, todos já conhecem essa história: Harry é um garoto que mora com os tios e cresce em um ambiente familiar nocivo, vendo seu primo Duda ganhando tudo que sempre quis, sendo mimado até o tutano dos ossos. Talvez seja de cada um, mas onde Dumbledore estava com a cabeça ao pensar que um cenário desse faria com que alguém desenvolvesse humildade? Se fosse o meu caso, o resultado seria uma criança com traumas psicológicos e distúrbio de agressão e inveja. No MEU caso, tá?

Ao completar onze anos, Harry é convidado para ingressar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde vai aprender tudo sobre o mundo o qual seus pais pertencem e ele também, e a primeira razão da saga ser o que é hoje enceta aqui.

Hogwarts nos engole!
É uma representação espetacular de um cenário de escape para crianças e adultos que acreditam em magia. Toda a construção não só da escola, mas do povo dos bruxos em si é interessantíssimo. Pensar que há uma sociedade coexistindo com a nossa e se mantendo no anonimato me fez passar noites sem dormir enquanto devorava a saga. O Ministério, as aulas, histórias do mundo bruxo… tudo.

Tudo bem, nem tudo. A superlatividade que o mundo bruxo causou em nós ao longo dos anos é tanta que talvez podemos esquecer de detalhes ou adicionais mais banais hoje em dia na literatura fantástica. As criaturas mais tolkinianas são um exemplo. Se este fator é um ponto positivo ou negativo, cabe a cada um definir baseado na sua experiência pessoal com a saga.

É quase impossível (quase) não nos sentimos apegados ao menino Harry. O garoto é curioso e quebra regras, mas também não é o melhor de sua turma nas aulas, nunca deixando de fazer o necessário para passar para o próximo ano pelo medo de ficar para trás. O arquétipo de uma criança.

O foco no rapaz é tanto que, embora não pareça dado o tempo que já se passara e com a potência dos filmes em nossas memórias, Rony é quase ofuscado por inteiro aqui. Sua pressão ou falta de presença por ser só mais um de sua família acaba o neutralizando de ter uma personalidade própria, ou de poder exibi-la. Em outras palavras, ele não se destaca. Seja pelo fator acima, seja pela falta de mão de Rowling em dar mais tempo a ele. E um “Feitiço de Ironia” acontece aqui: A falta de mão externa da autora em não dar destaque para um personagem que não tem presença por razões internas da narrativa são duas forças que se anulam, criando um personagem que se destaca sem se destacar!

Tudo bem, parei. Mas é dessa maneira que consigo descrever Ronald Weasley. Ah, os Weasleys…

E muito disso também se deve a Hermione, que com certeza rouba a cena quando está presente. Seja por sempre esbanjar seu conhecimento ou por ser um tanto mais rigorosa quanto às atividades acadêmicas, a personagem acaba sendo a mais papa-cena do livro, por estar em muita sintonia com o mundo bruxo. Falando sobre a polêmica (e os memes) acerca da garota ser a verdadeira protagonista e heroína dessa história, recito aqui uma fala da própria: “[…] existem coisas mais importantes, como amizade e bravura. […]”. Mesmo com essas qualidades, ela claramente possui uma mente MUITO quadrada, segue os livros à risca como se fossem absolutos. Em outras palavras, e dando fim à discussão de que ela seria muito mais encaixada em Corvinal, Hermione carece de imaginação, com uma cabeça muito mais fechada do que deveria, que funciona também como um contrapeso para outra personagem que surge nos livros seguintes.

Cada um do trio ali tem suas próprias vantagens e desvantagens, e vejo os três como um conjunto perfeito para usarem suas individualidades se necessário ou quando precisarem agir como equipe. E note que recitar os defeitos de algum personagem (seja ele literário ou não) está muito longe de ser apontar os defeitos da obra em si, e em muitos casos é o extremo oposto. Afinal, qual interesse, afinidade, carinho ou empatia vamos ter com alguém 100% perfeito, sabendo que algo assim é impossível nos padrões humanos?

No entanto, como algoz desse incrível universo que a J. K. criou, a autora acaba sendo péssima com os diálogos. Por diversas vezes eu não sabia quem estava falando o que, tanto pela forma que ela separa as caixas de fala tanto pela forma que cada personagem em se pronuncia. É como se todos falassem da mesma maneira, e isso sim é um defeito negativo, uma causa externa que afeta a personalidade interna de cada um. Isso, porém, não soa tão amargo quanto deveria, devido a escrita leve e rápida da autora, que não enrola para fazer as coisas acontecerem. É como se, ao final da última frase do último capítulo, você compreendesse que ele não é nem muito curto e nem muito longo. Tem o tamanho exato para uma porta de entrada para o mundo literário, sem soar muito precoce ou arrastado.

E, voltando para o elefante na sala, a respeito dos posicionamentos da autora nas causas LGBTs e sociais atuais, eu não creio que eu seja a pessoa mais adequada para falar de um assunto tão delicado. Acredito que sim, é possível separar o autor de sua obra e não deixar de consumir algo por razões e opiniões pessoais de quem a criou, MESMO que isso, de alguma forma, seja expressado na obra. Afinal, se você é do tipo que fala mal de algo sem nem ter se dado ao trabalho de consumi-lo, os problemas se estendem para muito além do alvo de cancelamento…

Mas sei também que é uma variável imensa, onde se deve analisar caso a caso, verificar a gravidade dos acontecimentos e muitos outros. Por isso deixo explícito de que eu não sou qualificado pra definir o cancelamento de ninguém, mas, se porventura, pedissem minha visão sobre o caso, eu diria para que você saísse um pouco do Twitter e fosse ler Harry Potter. Faz bem pular para fora da Internet um pouco e aprender que o mundo não caminha de 280 em 280 caracteres, acredite.

O primeiro volume da saga do mundo bruxo é um convite de boas-vindas mais que ideal para todas as idades que querem conhecer uma das sagas mais importantes e influentes das últimas gerações. Muitas sagas literárias juvenis e infanto-juvenis que rodam por aí (a minha favorita inclusa) nunca teriam nem sequer entrado na cabeça de seus autores se J.K. Rowling não houvesse publicado seus livros. Seja alvo de polêmicas hoje em dia ou não, ele vai perdurar pra sempre na cabeça de quem viajou por Hogwarts junto com Harry e outros tantos personagens que somos apegados até hoje.

Astranum

Mesmo tendo iniciado minha jornada mundo afora bem cedo através de uma escola de magia num castelo camuflado, foi numa colina em Long Island com campos de morangos que encontrei o lugar ao qual posso agradeçer por ter feito parte da minha juventude. Hoje vivo transitando entre o Templo do Ar do Leste e uma cafeteria em Shibuya.