Crítica | Harry Potter e o Cálice de Fogo, de J. K. Rowling

Crítica | Harry Potter e o Cálice de Fogo, de J. K. Rowling

  Ao terminar a releitura deste volume, decidi dar uma olhada na obra cinematográfica e ficava cada vez mais óbvio a falta de mão no quarto filme. Sei que é natural uma adaptação de qualquer obra literária para o cinema cortar muitos detalhes para deixar nos tamanhos adequados de uma película, mas aqui a coisa é mais séria, cortando algumas informações importantes e enxugando outras que tiram muito do suspense e tensão necessária que este livro carrega, e é dele que falarei agora.

Os aspectos infantis e vibrantes são gradativamente deixados de lado e dão lugar a uma atmosfera mais sólida e fria, que se encontra visível na presença dos Comensais da Morte, dos perigos do mundo bruxo, das entranhas sujas do Ministério e até mesmo logo no primeiro capítulo, onde Rowling expande a história para além da visão de Harry, nos mostrando o casebre abandonado da casa dos Riddle e os primeiros movimentos do servo Rabicho para a ressureição do Lorde das Trevas.

Após dois meses dos acontecimentos do terceiro livro e férias de verão tranquilas, os últimos dias de recesso de Harry são incomodados por uma ardência repentina em sua cicatriz através de um sonho. O garoto ignora o ocorrido e parte para o quarto ano na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, onde um evento secular vai acontecer: o Torneio Tribuxo. Nele, três competidores, um de cada escola de magia diferente, devem competir em três tarefas, onde o vencedor leva para casa um abastado prêmio em dinheiro e a glória para sua escola.

É previsível então que, de alguma forma, Harry acabasse sendo inserido no torneio. Não tendo colocado o nome para inscrição, tanto ele quanto seus amigos acreditam que alguém dentro da escola esteja tentando acabar com o rapaz dado a conhecida periculosidade das provas. Sua permanência no torneio é o ponto mais baixo do livro, e não pelo seu desempenho de um garoto de 14 anos contra três alunos já maiores de idade. A autora mantém o desempenho do rapaz muito crível dentro de suas próprias limitações, mas não fica de fato explicado as consequências da exclusão do garoto do torneio já que sua inscrição fora manipulada, é apenas dito que um contrato mágico é feito após a escolha e pronto. Não conseguimos sentir o porquê de Harry ser obrigado a participar.

Mas nem por isso tudo é simplesmente jogado desnecessariamente em um oceano sombrio e sem sentido, Rowling sabe a idade de seus personagens e corresponde seus atos com elas, por isso é natural então que ela aproveitasse disso pra desenvolver o trio principal ainda mais. A briga entre Harry e Rony por causa da inscrição do protagonista no Torneio Tribuxo nos mostra que é cada vez mais difícil esconder nossos sentimentos durante a adolescência. Rony ganha uma camada muito mais funda aqui quando vemos que ele está bravo com Harry ao ver que o garoto sempre recebe destaque em tudo, e sente uma pressão em ter atenção e visibilidade já que ele é irmão de outros seis Weasleys que tem ou tiveram fama na escola. Harry começa a mostrar seus sintomas de puberdade também, ao ter seus momentos de paixonite por Cho Chang e também ao aumentar seu ego na sua síndrome de herói, onde, por vezes, acredita que possa resolver tudo sozinho, vide os momentos antes da segunda tarefa.

Hermione se expande para além da personagem sabe-tudo. Suas inseguranças e os primeiros sinais de interesse amoroso em Rony são colocadas a mostra através da discussão que os dois tem durante o baile de inverno, onde a mesma vai para a festa com Vítor Krum, até então ídolo do rapaz no quadribol. Mas, felizmente, ela não é rebaixada para a adolescente apaixonada. A garota expõe cada vez mais seus ideais igualitários entre as raças a ponto de formar uma espécie de ONG para lutar contra a servidão de bom grado dos elfos domésticos. Em certos momentos chega a ser cômico a forma como Harry e os amigos tratam este movimento, mas a persistência da garota mostra como ela é muito mais do que a mera aluna sabichona, estando disposta a tomar a frente em prol de suas causas, algo que também é mostrado nos próximos livros.

Há personagens secundários aqui que são inseridos de forma a entrelaçar o mundo mágico com o trouxa. Rita Skeeter (propositalmente insuportável) é um retrato do sensacionalismo. A repórter enxerida do Profeta Diário distorce suas entrevistas e os acontecimentos a fim de gerar um conteúdo atrativo para o jornal (mesmo que seja preciso de meios ilegais para isso) e que, por natureza, o ser humano acaba querendo ver. As consequências dessas notícias acabam fazendo com que Harry, Hermione, Hagrid e outros acabem sofrendo de preconceito na escola, provocando murmúrios por onde passam, sofrendo ódio gratuito por informações falsas, algo que combina muito com a sociedade de hoje em dia.

Outro personagem relevante para a trama é o Sr. Crouch, este que a autora usa para fins maniqueístas. Sendo do Ministério da Magia e repulsivo quanto a qualquer arte das trevas, o homem utiliza de qualquer método para ascender ao poder e expurgar todo o mal, ao ponto de encarcerar o próprio filho em Azkaban. Por conta disso, muitos o enxergam quanto alguém tão impiedoso quanto qualquer um que tenha passado para o outro lado. Os fins justificam os meios, afinal?

Todas estas linhas da trama acabam que carregam um ótimo suspense acabam convergindo com o clímax do livro, este que não se apressa nem se arrasta para chegar. O Cálice de Fogo é o último da saga onde a autora não inicia seu problema de ritmo narrativo (mesmo este tendo mais de 200 páginas em relação ao anterior). E, quando o ato final chega, estamos vidrados na cena, muito disso devido as descrições de cenário excelentes que a autora faz durante todo o livro, que vai de vilarejos aquáticos de sereianos e cemitérios fúnebres que exalam uma aura de trevas.

Sendo o livro que sucede o divisor de águas da franquia pela mudança de público-alvo, O Cálice de Fogo faz o serviço direitinho para pavimentar a guerra inevitável que estaria por vir. O ressurgimento do Lorde das Trevas, além de muito bem articulado, foi também mais do que um mero retorno explosivo do mal encarnado. Não. É um regresso pensado, onde Voldemort decide usar a arma que foi lhe dada de bandeja: o medo e descrença daqueles no poder sobre seu retorno, onde preferem acreditar num golpe de estado de supostos rebeldes por puro desejo de permanecer em seus altos cargos políticos. Com o gancho deixado neste aqui, já começamos a nos dar conta de que nada mais será como antes.

Astranum

Mesmo tendo iniciado minha jornada mundo afora bem cedo através de uma escola de magia num castelo camuflado, foi numa colina em Long Island com campos de morangos que encontrei o lugar ao qual posso agradeçer por ter feito parte da minha juventude. Hoje vivo transitando entre o Templo do Ar do Leste e uma cafeteria em Shibuya.