Falcão e o Soldado Invernal #2 | E se ele estivesse errado?

Falcão e o Soldado Invernal #2 | E se ele estivesse errado?

Artigo bem atrasado, eu sei, mas foi bem complicado escrever qualquer coisa enquanto colocava o site no ar novamente. Dito isso, continuamos seguindo nossa série da vez na Disney+, e ainda pensando que ela custa a engatar de vez na narrativa que propõe, está tudo meio parado ainda, mas já temos alguns sinais do que será o foco da trama.

Bom, achei esse segundo episódio melhor em relação a estreia por causa do ritmo que a história assumiu a partir de agora, e muito disso se deve ao fato do vermos o Bucky e o Sam atuando juntos de vez daqui pra frente, é como se a série estivesse finalmente começando. A estreia passou uma certa sensação de lentidão, o que não é exatamente um problema se servir pra pavimentar o plano de fundo da narrativa como parecia ser o caso, porém essa história da família do Sam não empolga, me passou muito a sensação da apresentação da família do Gavião Arqueiro, mas eram cenários completamente diferentes. Enquanto no caso do Clint seria somente pra deixar uma brecha para um conflito futuro, no caso mais especificamente sobre a filha dele, aqui não, não devia ser apenas para mostrar que ele tem família, mas sim pra estabelecer um conflito secundário interessante e pertinente pelo resto da série, mas não souberam fazer isso muito bem. Até tivemos a cena do empréstimo e tudo mais, que por sinal foi a única parte boa nesse quesito, mas fora isso acaba sendo bem esquecível, o que é ruim visto que é algo importante para a construção do personagem principal.

Falando no Sam, muito desse episódio fala com ele sobre sua relação sobre o legado do Capitão América. Já citei isso no outro texto mas é bem perceptível que essa vai ser o tônica de todos os episódios, porém sempre vista sob uma ótica diferente em cada um deles. A visão que nos é mostrada nesse episódio é sobre mais um dos percalços que ele teria caso aceitasse o escudo logo de cara, justamente quando Bucky o leva para conhecer Isaiah Bradley, um veterano de guerra que conseguiu deter o Soldado Invernal durante a guerra da Coréia porque é um super soldado, o primeiro super soldado negro, mostrando que os EUA vem tentando reproduzir o soro e não é de agora. O Sam acaba assumindo o papel do público, como o personagem que, assim como nós espectadores, não sabe de nada e está descobrindo o mundo que o cerca somente agora. Nessa cena vemos como Isaiah está traumatizado com a forma que foi tratado pelo governo, já que foi preso depois que seu serviço terminou, sofrendo com experimentos e testes. Aqui pra mim foi o ponto alto no quesito narrativo do episódio, pois além de vermos todo o sofrimento nas palavras e nos olhos do Isaiah, nós sentimos isso e é bem verdadeiro, deixa a história mais profunda e angustiante. É nesse ponto que o Sam definitivamente passa a questionar as decisões do governo, mesmo que antes ele não tivesse concordado com a escolha de um novo Capitão América ou com a burocracia na situação do empréstimo, nada tinha ficado tão nítido quanto nesse momento, quando ele percebe que o primeiro super soldado negro nada mais foi do que um rato de laboratório, apenas por causa da cor de sua pele.

Esse momento foi muito emblemático, fica marcado ali o primeiro passo na jornada do Sam para mostrar ao mundo a nova face da américa, um homem negro representando a maior potência do mundo, que praticamente foi construída por seus ancestrais. Logo quando saem da casa, Sam e Bucky começam a discutir sobre essa nova descoberta, e porque isso não tinha vindo a público, até que são abordados por policiais que perguntam se Sam está incomodando Bucky e só se dão conta do que estão fazendo quando reconhecem ambos. É bem óbvio qual o motivo dessa cena, mostrar que mesmo sendo quem ele é e tudo que fez pelo mundo, Sam continua exposto ao racismo estrutural presente na sociedade, e só recebe um tratamento normal quando é reconhecido. O grande problema aqui é que esse acontecimento ficou bem deslocado do resto da cena, não é como se policiais estivessem ali por perto e os abordassem, na verdade uma viatura chega do nada no meio da discussão, quase como uma conveniência de roteiro. É esquisito, poderia até ser melhor trabalhando com apenas uma viatura chegando para fazer as duas coisas, mostrar essa questão do racismo e executar a ordem de prisão do Bucky por faltar a terapia, ficaria mais natural do que fazer a cena parecer retirada diretamente de Todo Mundo Odeia o Chris.

Na delegacia temos mais situações que trazem altos e baixos bem marcados nesse episódio, começando pela cena da terapia com os dois protagonistas. Não que tenha feito muito sentido ambos participarem, afinal o problema do governo nesse sentido é o Bucky, não sei se podemos pensar que a terapeuta o chamou apenas por considerar o Sam alguém próximo do Bucky, e que por isso seria bom ele participar porque Bucky precisa de pessoas perto dele. Não sei, pelo menos na hora pareceu que aconteceu apenas porque sim. De qualquer forma, os dois nunca se deram bem e agora isso fica mais evidente, com a insistência de Bucky para convencer Sam de que foi um erro abrir mão do escudo, o questionando cada vez mais sobre isso, até que entendemos que isso não foi simplesmente uma preocupação com o legado de seu melhor amigo, e sim o medo de que, se ele tiver errado sobre o Sam ser digno, pode ter errado sobre ele ainda ser uma pessoa boa e digna de continuar vivendo. O fato do Bucky ter consciência sobre seus crimes enquanto era o Soldado Invernal tem tudo a ver com isso, afinal como ele pode sair por ai sem pensar nas atrocidades que foi forçado a cometer, nas vidas inocentes que tirou. E foi o Steve que lutou por ele por acreditar que ele ainda tinha algo bom dentro de si, e é nessa crença do Steve que ele se agarra para seguir em frente, como se não pudesse estar errado sobre isso.

Na cena da delegacia, nós chegamos no momento que pelo menos pra mim foi a grande decepção do episódio, pelo que ele vinha construindo John Walker. O episódio em si tratou de apresentar o personagem pro público, e eu fiquei positivamente surpreso com a forma que a série estava fazendo isso, porque eu esperava um personagem bem superficial, um novo capitão américa truculento e subserviente porque sim, mas vemos um caminho bem diferente, de um bom soldado que na verdade estava sentindo a pressão da responsabilidade de sua nova “patente”. Ele já é mostrado com uma pessoa com capacidades físicas além do comum, afinal ninguém é capaz de manejar o escudo daquela maneira sem um preparo físico excelente, mas acima de tudo, ele não possuía poderes para isso. Quer propaganda melhor para o governo num momento de crise do que um Capitão América com tamanha capacidade atlética sem nenhum super soro, mostrando que é igual a qualquer outro americano? e totalmente nas mãos do governo ainda por cima? Isso é que é jogada de marketing!

Tudo que foi mostrado no episódio, inclusive a tentativa dele se aproximar dos protagonistas para estabelecer uma certa relação com os melhores amigos de seu antecessor que possivelmente ele admira, acabou me frustrando no final. No fim da cena da delegacia quando ele manda com que fiquem fora de seu caminho, com um tom ameaçador, acaba jogando por terra toda essa construção, porque foi uma situação muito aleatória, não tinha porque ele dizer aquilo ou agir daquela maneira. Voltou a ser só o superficial pelo superficial, de ser mau apenas por que tem que ser, porque o roteiro pede que ele seja antagonista. Poxa, tá certo que deve ter muita coisa pra mostrar em seis episódios, isso até explica a cena do Isaiah ser tão curta e eu não me surpreenderia se daqui pra frente ele só seja citado vez ou outra, mas se é pra fazer do John Walker o protagonista, ao menos construam o personagem direito, deem motivos para ele ser do jeito que é.

Não podemos esquecer dos nossos queridos Apátridas, grupo terrorista da vez que a cada novo episódio vão mostrando a que vieram, com seu lema de Um Mundo, Um Povo. É interessante que eles acabam por ser um grupo que não está disposto ao caos propriamente dito, e sim lutar por uma causa que consideram justa, no caso pelas pessoas que estavam vivas nos cinco anos antes dos Vingadores trazerem de volta todos que sumiram na primeira batalha contra Thanos, e é isso remete a cena do primeiro episódio, do empréstimo no banco, e começamos aos poucos a entender que o tratamento do governo dado as pessoas que continuaram vivas não foi lá dos melhores, então a revolta contra as instituições governamentais acaba sendo válida, essa é uma maneira muito mais crível de construir um vilão, embora eu pense que eles são muito mais vítimas da situação do que vilões de verdade, então mais pra frente poderemos ver eles mudando de lado, até junto com Sam e Bucky, lutando contra as pessoas responsáveis pela nova versão do soro do super soldado. E por falar nisso, como eles tiveram acesso ao soro? que por sinal está bem mais utilizável que a primeira versão, que apenas aprimorava o que a pessoa já era por dentro. Nessa nova versão o acesso a força sobre-humana está bem fácil, então quem teria tecnologia pra atingir um estágio tão avançado do soro?

Bom, depois de tantos questionamentos, Bucky acha uma boa ideia visitar o Barão Zemo na prisão para descobrir se a Hidra possui alguma ligação com novos super soldados circulando pelo mundo, e minhas expectativas aqui subiram demais, porque quem conhece o personagem de outras mídias sabe que ele não apresentou um terço do que é capaz em Guerra Civil (assim como Ultron em Era de Ultron). Espero de verdade que o vilão seja melhor aproveitado, ele seria um ótimo contraponto ao contexto nacionalista que o Capitão América e seu legado estão inseridos, com seus discursos filosóficos e soberbos que deixariam o personagem marcante. Também teremos respostas sobre a continuação da Hidra, porque com certeza não acredito que a organização vai ter sumido assim do mapa tão fácil, ela que está sempre por trás de diversas orquestrações afim de criar uma nova ordem mundial não poderia ficar de fora da história, principalmente num momento que vemos um mundo em crise sendo retratado, seria o momento perfeito para eles voltarem com tudo. E vocês, o que acham? Sei que o texto demorou demais pra sair e peço desculpas por isso, tive muito trabalho para trazer o novo site ao ar mas já estamos voltando ao normal, fiquem firmes. E deixem suas opiniões nos comentários, vamos teorizar mais sobre o que pode vir por aí!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?