Liga Justiça: Ponto de Ignição | Mais rápido do que precisa ser

Liga Justiça: Ponto de Ignição | Mais rápido do que precisa ser

Em tempos de pandemia e escassez de filmes, resolvi revisitar algumas animações que estavam praticamente esquecidas na minha mente e, depois de ver o sucesso de Liga da Justiça: Guerra de Apokolips, me chamou a atenção que a DC conseguiu com as animações algo que ela tanto quer com os live-actions mas não vai conseguir tão cedo devido a falta de planejamento: um universo expandido coeso e bem construído. Tivemos a grande conclusão com o filme de 2020, porém essa narrativa vendo sendo construída desde 2013, começando ironicamente pelo Ponto de Ignição, famoso arco do Flash que já vem tentando ser adaptado em outras mídias há algum tempo, mas sem muito sucesso. Um respiro de alívio para os fãs da editora ou mais uma tentativa falha em seu mar de insucessos?

Primeiro de tudo, temos que parabenizar a DC por conseguir ser a pioneira em criar animações com grandes sagas que tinham inicio, meio e fim e não apenas histórias episódicas. E esse sucesso em contar as histórias e além disso, conecta-las entre si e faze-las conversarem num mesmo universo não vem de hoje, e sim desde os anos 90, coisa que a Marvel tentou fazer mas nunca conseguiu, muitas vezes por cancelar suas obras animadas para focar na produção dos live-actions, e vemos o reflexo disso hoje, observando onde cada empresa é mais bem sucedida em contar histórias. Não é difícil lembrar de grandes produções nesse sentido como as animações de Batman e do Superman dos anos 90, Batman do Futuro, Jovens Titãs, Super Choque, Justiça Jovem e é claro, Liga da Justiça e sua continuação, então nesse sentido a DC sabe muito bem como contar uma história.

Dito isso, também vale ressaltar o esforço para adaptar momentos-chave da trama, afinal é uma saga gigante com diversas edições de várias revistas diferentes para um filme de menos de uma hora e meia. É bom para conhecer um pouco desses momentos, como o Bruce Wayne não ser o Batman e sim seu pai, numa versão muito mais violenta e sanguinária; ou na guerra dos Atlantis com as Amazonas que acaba por destruir o mundo. Infelizmente pela curta duração do filme, mesmo esses pontos acabaram por ser apenas pincelados rapidamente aqui e ali sem muito aprofundamento, e outras passando apenas por detalhes como a mãe do Bruce ser a Coringa daquela realidade ou como Hal Jordan nunca virou o Lanterna Verde porque nunca recebeu o anel de Abin Sur. Pequenos detalhes que não caberiam no filme mas que não passam despercebidos pelos olhares dos fãs, que apreciaram cada um deles.

Sempre ele! Ou será que não?

Porém, esse acaba sendo um problema que acompanha todo o roteiro do filme, que por ser tão corrido não me dá tempo para conhecer os personagens o suficiente para me importar com esses detalhes ou até mesmo notá-los. Por ser um filme de origem, é esquisito que já no começo dele você veja uma liga da justiça onde todos os personagens se conheçam aparentemente há bastante tempo e tenham uma forte relação de amizade, porém como é uma consenso que esse filme é o primeiro de sua cronologia, isso não faz o menor sentido, então durante o filme é difícil ter alguma empatia com o que está acontecendo com esses membros da liga pois a proposta relação de amizade do começo do filme nunca foi mostrada, então a menos que o espectador já tenha um conhecimento prévio dos quadrinhos/animações, é uma barreira para tornar as ações dos personagens mais críveis.

O próprio Flash sofre um pouco com isso, sua relação com a morte da mãe deveria ser o norte da narrativa, porém isso é muito pouco trabalhado durante o filme porque, mais uma vez, sua duração prejudica que tantas histórias sejam melhor desenvolvidas, mesmo que essa seja a principal. Enquanto assistia, fiquei com a sensação de que eles tentaram ao menos citar tudo que rodeava a saga em detrimento de aprofundar a história principal e acabaram por não contar nenhuma dessas histórias direito. No fim do filme, o sentimento que fica é que era tudo apenas por salvar o mundo, saindo da proposta das consequências da viagem no tempo e de ter que conviver com a dolorosa perda da mãe.

Esse acabou sendo um problema frequente sempre que um novo personagem aparecia na tela, onde ele era citado, tinha seus 3 minutos de fama e depois sumia e/ou morria, porque o filme precisa continuar correndo com cada vez mais novas informações sem muita explicação. Claro que sendo uma animação o público juvenil, não poderia faltar ação e o filme não fica devendo em nada nesse aspecto, foi até bem sanguinário eu diria, mas acho que foi mais frenético do que precisava ser, e por isso a história foi muito mutilada nesse sentido, sendo tudo muito linear do ponto A ao B, com quase nenhuma área cinza na narrativa que pudesse ser explorada, como o que a morte do Bruce e a loucura da Martha fez com o Thomas e seus métodos como Batman, ou como a Mulher Maravilha ter matado sua esposa fez com que Aquaman declarasse guerra as Amazonas mesmo que ele e Diana fossem amantes, afinal já que o filme é sobre como lidar com a morte de pessoas importantes para nós, porque não usar esses paralelos em outros personagens para trazer essa discussão para a vida do Barry? Enfim, preferiram focar em muita coisa de uma vez só e acabaram não contando nada.

Como mencionei acima, a ação presente no filme é muito boa, e é o que faz a animação valer a pena. Até hoje eu não lembro de ter visto nada da DC lançado antes desse filme que não tivesse medo nenhum de soltar os personagens no campo de batalha e ir até o fim, sem limites pro nível de violência alcançável, como por exemplo Diana cortando a cabeça de Mera e causando toda a guerra entre os dois povos, ou Superman recém descobrindo a luz do sol e por isso sem controle de seus poderes, evaporando soldados com sua visão de calor, isso sem citar a emblemática cena final de Thomas atravessando a cabeça do Flash Reversa com uma bala, a queima roupa. É muito divertido assistir tudo isso, porém a narrativa rasa acaba tornando esse filme algo vazio, sem alma.

Pensando nele como um filme único, é divertido pelas cenas de ação e entretém com isso e somente com isso, além de claro os fanservices para os fãs mas ligados nos detalhes, mas é isso. Eu posso estar sendo muito exigente esperando uma boa trama de uma animação de pouco mais de uma hora? Sim, mas se a ideia era fazer um universo expandido a partir dela, falhou bastante nesse sentido por ser vazia no quesito narrativo. O próximo filme, Liga da Justiça: Guerra, funciona bem melhor nesse sentido, porém é um assunto para um próximo texto na semana que vem? quem sabe, se esse texto tiver um feedback bacana? Digam nos comentários se querem mais desse universo expandido das animações da DC, seu comentário é muito importante para o site, afinal estamos aqui para discutir!
Até a próxima!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?