Anime Topic 025 – Dororo: O preço por pegar o que te foi tomado

Marcado por uma maldição jogada por seu próprio pai, um jovem espadachim inicia sua jornada em busca de seu corpo, junto a uma criança que tenta sobreviver sozinha em cruéis tempos de guerra. Dororo segue a sangrenta jornada de duas vidas marcadas e amaldiçoadas pela Guerra.

Dororo é uma obra original do lendário mangaká Osamu Tezuka publicada em 1967, sendo sua primeira adaptação um anime de 26 episódios em 1969, e posteriormente sendo adaptado novamente em 2019 pelo Estúdio Mappa, sob direção de Kazuhiro Furuhashi, contando com 24 episódios. O anime de 2019 também faz uma certa releitura de certos aspectos do mangá de Tezuka é desta adaptação de que falarei nesse texto.

A história tem início quando o Senhor Feudal Daigo Kagemitsu forja um pacto com doze demônios para que os mesmos tragam prosperidade para suas terras, e o preço que Daigo escolhe pagar é seu filho recém nascido, que tem seu corpo roubado pelos demônios e logo após isso é abandonado e jogado em um rio. Anos mais tarde, o destino cruza os caminhos do pequeno ladrão Dororo e Hyakkimaru, o espadachim com próteses em seu corpo que um dia foi o bebê amaldiçoado e abandonado para morrer; juntos esses dois iniciam sua jornada em busca de reaver o que um dia foi tomado de Hyakkimaru.

Dessa vez começando com os pontos negativos, devo dizer que Dororo é sim um excelente anime tanto em enredo, direção, trilha sonora e animação, porém algo que pode fazer alguém facilmente desistir da obra são os arcos do episódio 13 ao 16, que por motivos de uma breve troca de equipe tiveram uma enorme queda de qualidade. As histórias desse episódios são muito desinteressantes e não acrescentam quase nada para a narrativa, a própria animação que normalmente é fluída e muito bem feita decai muito nesses episódios, porém o anime termina com saldo positivo, pois a partir do episódio 17 tudo volta aos eixos para uma reta final emocionante e extremamente bem feita.

Dororo é uma obra que toca em temas muito interessantes e os trabalha de forma incrivelmente humana, como a redenção que é vista no arco de Jukai, um médico protético com um passado de guerra sanguinário, que já sem acreditar que tem motivos para viver, mas que através de Hyakkimaru, um bebê sem corpo e sem condição alguma de fazer algo mas ainda assim se apegando a vida, encontra novamente esperança, acreditando que pode seguir em frente com seus pecados contanto que possa ajudar alguém que ainda quer viver a se manter de pé novamente, tal como fez com o garoto amaldiçoado, para quem deu um corpo e lâminas para defender sua vida.

O anime também faz um ótimo trabalho quando toca no assunto guerra, se passando numa época em que o Japão vivia em meio a inúmeras guerras civis, ele mostra como a destruição, a pobreza e a opressão causada por elas afeta as pessoas. A história envolvendo essa temática que mais pega no coração é o arco da Mio, uma jovem que cuida de crianças órfãs de um vilarejo e para conseguir recursos pra cuidar das mesmas, acaba tendo que se prostituir para os soldados de dois territórios rivais e acaba sendo pega no fogo cruzado entre eles.

A cereja do bolo de Dororo com certeza é o arco de personagem de Hyakkimaru, ele é um personagem interessante de acompanhar justamente por vermos ele “nascer”, pois a cada demônio morto ele recupera uma das partes de seu corpo e nisso também está desbravando o mundo pela primeira vez, como no momento que recupera sua audição e precisa se acostumar a ouvir, pois conseguir finalmente ouvir os sons o incomoda e o assusta, ele nunca tinha ouvido nada e agora que consegue é incômodo e assustador. Também é engraçado ver ele aprendendo a se comunicar, quando recupera sua voz ele ainda precisa aprender falar, sua comunicação é escassa devido o pouco vocabulário e isso acaba sendo interessante e até um lado engraçado do personagem.

Ainda falando sobre Hyakkimaru, também é muito bom como o anime trata sua jornada, ele vai se formando como pessoa, ele evoluí muito bem, indo de um boneco quase sem emoções pra um ser humano que quer ser amado e ter de volta o que lhe foi roubado, o que cria um arco incrível de Hyakkimaru iniciando uma cruzada contra seu pai e os demônios para recuperar seu corpo, pouco se importando com o que acontece aos outros, visto que a cada demônio morto não só uma parte do corpo de Hyakkimaru volta mas como também uma tragédia ocorre nas terras de Daigo, afetando pessoas inocentes que nada tem haver com os erros do senhor feudal. É interessante ver esse confronto, ver Hyakkimaru lutar pelo que é seu e não se importar o preço a se pagar, seja a vida de várias pessoas ou até sua humanidade.

Também é importante falar como a personagem Dororo é importante para o desenvolvimento de Hyakkimaru, sendo ela o que segura Hyakkimaru em sua humanidade. Ela, assim como Junkai, é a família que o jovem nunca teve e quem o ensinou sobre o mundo. A personagem também é um ótimo alívio cômico na série e tem um plano de fundo emocionante que, como já mencionei antes, retrata muito bem a guerra e suas consequências, e é protagonista de uma das cenas mais impactantes do anime.

Pra finalizar também devo falar como família é um assunto recorrente no arco principal da história. Tudo acaba sendo movido por isso, mostrando os dois opostos, Hyakkimaru que foi renegado por seu pai, simplesmente usado como moeda de troca mas acabou encontrando em sua jornada pessoas que pode dizer que são sua família (o episódio 17 é o que melhor demonstra isso); e de outro lado temos Tahomaru, o irmão de Hyakkimaru que foi criado para ser o sucessor de Daigo, esse personagem é muito interessante pela forma como ele age, apesar de ainda querer recuperar o irmão, ele não quer que as terras caiam em desgraça pelo possível fim do pacto e acaba botando o “bem comum” acima de seu irmão, um arco e um personagem muito bem feitos com um desfecho incrível; ainda no meio de tudo está a mãe dos dois garotos, querendo que seus filhos não sigam esse caminho que os levará a matar um ao outro, desejando nunca ter sido obrigada a abandonar seu primogênito.

Nesse arco sobre família, Daigo também é uma peça muito interessante, ele segue sua convicção até o fim e planeja manter a paz, mesmo que isso signifique matar o primogênito que ele mesmo condenou a esse terrível destino, um personagem que apesar de pouco aparecer é marcante.

Nos quesitos técnicos, Dororo também é incrível, com uma animação fluída e interessante pelo modo que diversas vezes referencia o traço original de Osamu Tezuka, uma direção muito bem feita e uma trilha sonora digna das mais épicas histórias samurais. No fim, Dororo, apesar de seus tropeços em certo ponto, termina com um grande saldo positivo, uma obra com mensagens de amor, família, perdão e redenção. 

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?