Animes Históricos – Ashita no Joe

  Olá Jovens e não-tão-jovens!

  Esse texto é originalmente de 2018, uma espécie de “dossiê” sobre obras que marcaram época e foram além das páginas do mangá ou da simples animação, mas que foram importante para a sociedade de alguma forma. Esse primeiro artigo será um piloto, caso vocês gostem o quadro continua, caso não tenha retorno ele vai ser engavetado (então compartilhem bastante pra ele continuar!)

  E vamos começar indo pro final dos anos 60, com um mangá (que consequentemente virou anime) sobre boxe, mas que representou muito mais que isso. Trata-se de Ashita no Joe (Joe do amanhã), uma das primeiras e mais influentes obras do gênero.

  Ashita no Joe é um mangá de boxe criado e desenvolvido por Ikki Kajiwara (o mesmo autor de Kyojin no Hoshi e Tiger Mask) e ilustrado por Tetsuya Chiba. Joe foi publicado pela editora Kodansha na revista Weekly Shonen Magazine (como quase todos mangás de sucesso na época) de 1968 a 1973, com um total de 20 volumes.

  Mas não foi só um mangá, pura e simplesmente, foi uma grande tempestade. Diversos grupos operários e estudantis usaram seu nome em manifestações, por que ele era associado como a voz da classe operária. Foi escolhido pelos estudantes no turbulento ano de 1968 como um símbolo de contestação social. Alguns setores conservadores chegaram a apontar a série como um instrumento de perturbação pública, até mesmo grupos terroristas de esquerda usavam o nome do personagem. Foram, aliás, as suas consequências políticas que precipitaram bastante o seu fim.

Um Japão diferente

  O Japão do final dos anos 60 e início dos anos 70 já estava dando o seu salto a passos largos na economia, que culminaria com um auge brutal nos anos 80, com a formação da chamada “bolha especulativa”. Mas não podemos esquecer que eles tiveram que reconstruir o país do zero, após uma segunda guerra mundial devastadora, e a recuperação foi bem lenta. Mas juntando a força de vontade e disciplina dos japoneses com os investimentos estrangeiros, o país se reergueu das cinzas.

  O aclamado sistema educacional japonês do pós-guerra contribuiu fortemente para o processo de modernização. A maior taxa de alfabetização do mundo e os altos padrões de educação foram as principais razões do sucesso japonês em se transformar em uma economia tecnologicamente avançada. As escolas japonesas também encorajavam a disciplina, outro benefício em formar uma força de trabalho efetiva.

O herói: Joe Yabuki

  O cenário inicial é uma grande favela, onde grande parte das pessoas vai trabalhar, e o lugar é controlado por criminosos, isso já fica claro desde as primeiras páginas. A História começa com Danpei Tange,um boxeador frustrado que largou os ringues após perder a visão de um dos olhos. Ele decide ser treinador, porém desiste quando é traído por seu discípulo. Desde então, Danpei passa a viver uma vida de miséria, andando com mendigos e enchendo a cara todos os dias. Certo dia, um jovem chega à cidade de Tange. Muito violento, orgulhoso, aproveitador e mentiroso, Joe Yabuki vive arranjando brigas, trapaceando, e praticando pequenos furtos. No entanto, ao ver os reflexos de Joe, Danpei se dá conta de que ele nasceu para o mundo do boxe, e decide largar a bebida em nome do seu sonho de fazer de Joe um grande boxeador, talvez até mesmo um grande campeão. Para Danpei, Joe é algo que ele não tinha mais: um amanhã.

  Esse é o começo de tudo, Ashita no Joe narra a saga de Joe Yabuki para deixar de ser apenas um marginal e se tornar um grande campeão do boxe. Num primeiro momento Joe não aceita a proposta, mas no decorrer da série, enfrentando os bandidos e outras figuras ele acaba aceitando, em troca, é claro, de teto, refeições e uns trocados pra sair de vez em quando. Mas ao contrário da maioria dos protagonistas de shounen, Joe não era nenhum santo. Muito malandro e trapaceiro, ele decide tirar vantagem das crianças locais que o seguem por todo canto. Só que as coisas não acontecem como o planejado e ele é preso e mandado para o reformatório. E é lá que o personagem mais se desenvolve, e decide realmente se tornar um boxeador. Danpei passa então a lhe enviar lições de boxe através de cartões postais semanais.

Spoilers terminam aqui!

  Além do mangá, foram criados 2 animes e um longa resumindo a história da obra. Em 2012 foi produzido o primeiro Live-action, e um anime em comemoração aos 50 anos do mangá foi feito em 2018, Megalo Box, outra grande obra por sinal. Quando o último volume do mangá foi lançado, milhares de jovens se juntaram em uma passeata em homenagem à história. Também ocorreram diversas campanhas sociais para mostrar que mesmo um jovem da periferia pode vir a vencer na vida e se tornar uma grande personalidade. Uma das coisas bem legais a se falar é que o mangá de Kajiwara inspirou o grande mangaká Masami Kurumada (criador de Saint Seiya) na criação de Ring ni Kakero (1977), outro mangá de boxe que fez grande sucesso.

  O Personagem Joe Yabuki é muito popular entre o publico japonês, um dos favoritos na cultura pop do país até hoje. Em 2006 ficou em 4º lugar de 100 como “Personagem favorito de anime”

O Símbolo da Classe Operária

  A criação de Ikki marcou uma geração no Japão nas décadas de 70-80, a série estreou em um período sócio econômico conturbado. Joe era o herói trágico, que expressava a constante luta da classe inferior para melhorar sua condição de vida. Joe representava o povo, e isso fez com que os jovens estudantes criassem simpatia por sua história e o transformassem em um ícone. Joe parece o típico sujeito mais arrogante do que tem condições para ser. Um vagabundo de rua, com a língua solta, sem respeito pelos mais velhos. Mas a sua escalada da miséria até a vitória, e que não viria sem um preço, representou para toda uma geração a luta de um povo pela dignidade, metaforizada entre os quatro cantos de um ringue.

  A saga de Joe Yabuki tocou em pontos sensíveis da classe operária que lia mangás e trabalhava duro durante aquela época de crescimento econômico. É uma história de ascensão social, se pensarmos nas entrelinhas. O amanhã de Joe era o amanhã do povo japonês também. Ashita no Joe é fascinante por tratar de algo simples, que tocou o povo porque falava a sua língua, a língua das pessoas comuns que passam pelas ruas e não notamos, as que vivem contando os trocados nos bolsos e que vão trabalhar em algum serviço duro e cansativo. Não são os que compram bonequinho de vinil em Akihabara. Não são os seres andrógenos que parecem ter saído de um clipe de J-Rock. São gente como a gente, que mesmo no Japão, nos parecem tão reais e familiares quanto as pessoas que conhecemos.

  É por isso que Ashita no Joe é um clássico. Enquanto houver mangá no mundo, ele será sempre lembrado, não importa que o leitor de mangá médio do Brasil fale mal e sempre fique reclamando de tudo, em nome do mangá que é a moda da vez.

Não importa o amanhã, Joe sempre estará lá.

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?