Blue Period | Primeiras Impressões

Blue Period | Primeiras Impressões

Porque se empenhar em algo que te motiva se se essa paixão não te garante uma boa vida, um emprego normal, como seria o padrão da sociedade? Se o caminho que todos devem seguir na vida para ter sucesso já está claro, o que faz alguém insistir em todos os outros caminhos?

É sob esses questionamentos que começamos a acompanhar Blue Period, um slice of life feito pelo estúdio Seven Arcs (Tonikaku Kawaii, Sekirei) e dirigido por Koji Masunari (Magi, Kamichu!). Nele, somos apresentados a Yatora Yaguchi, estudante do segundo ano do ensino médio que está entediado com sua vida normal, onde dedica seu empenho apenas a ser um sucesso socialmente falando, mesmo que não goste do que faz. Num dia, ao ver uma pintura feita por uma membra do clube de arte, ele fica fascinado com a beleza do quadro e das cores nela utilizadas. Mais tarde, em um exercício de arte, ele tenta transmitir sua paisagem ideal através de uma pintura e, depois dessa experiência, Yaguchi se vê tão imerso na arte que decide que é isso que ele quer fazer para viver, não importa o quão difícil seja.

Esse anime foi uma grata surpresa, sinceramente. Eu sou um pouco suspeito para falar desses slice of life juvenis, porque as reflexões que eles trazem na maioria das vezes me pegam de jeito, mas parece que temos uma história interessante vindo aí. Embora o protagonista, Yaguchi, seja até meio genérico para animes do gênero, o enredo e a forma como ele é apresentado torna fácil a identificação do público com o personagem, principalmente os jovens.

Mas não somente eles, porque conhecemos um protagonista passando por uma fase que todos já passaram na vida, em que você está no limiar de deixar de ser um jovem estudante e ter que descobrir que existe todo um mundo lá fora que não tolera erros e indecisões, que espera de você ações rápidas e que tenham sucesso para considerar você alguém produtivo para sociedade.

E a abordagem que o anime dá sobre esse assunto em relação ao Yaguchi num primeiro momento é muito bacana, porque diferente de outros jovens na mesma situação, ele é um cara que vive tendo consciência do que fazer e do que esperam dele, afinal ele é um personagem que faz de tudo para ter sucesso no meio que está inserido, mesmo que isso não o faça feliz, nisso se incluem cigarros, virar a noite com os amigos em bares mesmo durante a semana, e ainda assim conseguir ir bem no colégio.

Embora não aparente, existe uma dedicação para fazer isso tudo dar certo, e nisso já estava se formando alguém pronto para fazer parte da sociedade e ser mais um no meio da multidão, mais alguém cinza, sem face, que faz a engrenagem social continuar rodando sem expressões ou questionamentos.

Mas aí que é o grande ponto da história, ele não era feliz com esse caminho. Embora sua mente já tivesse aceitado que o certo é somente isso e nada mais importa, seu coração não conseguia ficar inerte a tudo isso, sua alma pedia por uma forma de expressar todas as emoções que ele reprimiu para se adequar a sociedade, e isso fica claro na cena em que ele encontra o quadro no clube de arte.

É a primeira vez que ele confronta aqueles sentimentos ao ver as cores, a beleza do quadro, a técnica usada para fazer a pintura ter aquela tonalidade. Outra coisa que é bem legal nessa situação do quadro posteriormente é ele entendendo que nada naquela criação acontece por talento, mas sim por esforço e muito estudo para chegar naquele resultado, tal qual ele fazia com sua vida social para adequá-la ao que ele considerava o ideal, o melhor possível.

Ainda sobre a questão de como Yaguchi lida com seus sentimentos, o anime passa muito bem a ideia de como, após essa fagulha inicial, ele não consegue mais conter isso, ele precisa dessa catarse, se expressar por meio da arte, mesmo que ainda não aceite totalmente esse fato num primeiro momento, ao ver o azulado de Shibuya ao amanhecer e pensar em como aquela visão lhe agrada, e logo em seguida pensar: “esses sentimentos não são meus”.

O clímax de toda essa situação é quando ele entrega seu desenho e ele é exposto no mural, onde tem aquela conversa com seus amigos e ele chora, se sentindo vivo pela primeira vez em muito tempo, por ter uma conversa de verdade com alguém, essa cena pra mim foi incrivelmente bela. Foram pequenas fagulhas aqui e ali que aos poucos vão crescendo e formando todo esse sentimento de paixão pela arte que, assim como Yaguchi, nós iremos conhecer e vivenciar durante a temporada.

Com certeza é meu maior hype pra esse fim de ano. Nunca tinha visto um anime com essa temática de arte então não sabia muito o que esperar, mas foi uma ótima estreia, a melhor até agora. E um detalhe interessante, aproveitando que hoje é Dia do Professor, achei muito maneiro a participação da professora dele nisso tudo, porque esse é o papel principal do professor, de ser um agente transformador que ajuda a guiar o aluno sobre quem ele quer ser agora e no futuro e, principalmente, ajudar o aluno a conhecer mais de si mesmo.

É uma interação que espero ver mais durante o anime. Também fiquei curioso sobre a amizade(?) dele com a Ayukawa, que eles parecem se conhecer muito mais do que foi apresentado até agora, parece algo além de apenas colegas de turma. Mas enfim, vamos ficar no aguardo porque esse aqui promete!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?