Crítica | Cobra Kai – 1ª Temporada: Ataque Primeiro!

  Grandes sucessos dos filmes de Hollywood não costumam ficar muito tempo guardados na gaveta sem ver a luz do dia, coisa antiga ainda rende dinheiro e com Karatê Kid não seria diferente, afinal foi um filme clássico que marcou época. Diversas continuações foram feitas e até alguns reboots, porém todos fracassados. Parecia que o brilho que trouxe tanto destaque a obra tinha ficado no grande filme original, até que chegamos em maio de 2018. Com a estreia de uma web-série no YouTube e o retorno dos protagonistas do filme principal aos seus papeis, Cobra Kai trazia um novo ânimo a franquia, com a premissa de contar uma história pela visão do “antagonista” Johnny Lawrence, dessa vez nos dias atuais. E a série acaba por funcionar tão bem por fazer apenas o básico, utilizando o que mais deu certo em seu filme de origem: superação, lições de moral e o bom e velho caratê!

Bom, eu confesso que antes de assistir a série, eu torcia um pouco o nariz para todo o estigma que essa produção carrega, afinal eu sou totalmente contra essa política de que já que uma obra faz sucesso, devemos estende-la até não dar mais para tirar o máximo de dinheiro possível e que se dane a história, mas eu não podia estar mais enganado. Aparentemente, após duas sequências e dois remakes, a franquia conseguiu se reestabelecer novamente, com uma história muito interessante e coerente com os dias atuais, porém sem deixar de inserir elementos nostálgicos que trazem até para aqueles que não vivenciaram os filmes na época, como eu, uma dose maior de entretenimento e de emoção para a trama.
Por falar na história, na série somos (re)apresentados a Johnny Lawrence que, de certa forma, continua vivendo exatamente de onde a vida dele parou após perder para Daniel LaRusso na final do torneio. Desde aquele acontecimento, sua vida parece ter parado no tempo e ele apenas se deixa ser conduzido, sem grandes motivações ou realizações que o tragam felicidade, apenas a tristeza de viver solitário em uma casa dominada pela sujeira e pelo lixo, e com sérios problemas de alcoolismo. Sua rotina muda a partir do momento em que ele resolve defender Miguel, seu jovem novo vizinho, de levar uma surra de valentões da escola. Impressionado com o estilo de luta de Johnny, Miguel insiste em aprender a lutar, até que depois de algumas negativas Jonnhy finalmente aceita, porém ao estilo Cobra Kai. Soa levemente familiar?

Pois é, embora pareça uma fórmula batida, até mesmo para os padrões da própria franquia já que é o mesmo argumento do primeiro filme, temos um ponto importante que nos chama a atenção, que é justamente a inversão de valores em relação ao produto original. Contar a história pela visão do antagonista e colocar ele como o mocinho da história é um velho clichê, mas todo clichê bem executado consegue sim render uma boa história, e aqui não é diferente. Toda a saga de redenção do Johnny é algo muito interessante de se acompanhar, desde o início em que ele demonstra ser um personagem mais “preto e branco”, encarando os problemas apenas de frente e não como um todo, quase que como um estereótipo de um típico valentão dos anos 80, porém mostrando a seus pupilos que ainda tem uma ou duas lições pra ensinar sobre a vida, mesmo que da sua forma meio torta de ver as coisas, mas que confronta exatamente alguns dos problemas criados pela nova geração, largando mão do politicamente correto e mostrando que as coisas podem ser feitas de um jeito diferente, não exatamente certo, mas diferente do que ter uma geração tão passiva do que temos hoje. Com o passar dos episódios vemos o personagem ganhar algumas camadas e aos poucos perceber que a metodologia de vida do Cobra Kai não parece ser o modelo perfeito a ser seguido, embora o personagem não chegue a admitir isso de cara, mas vemos essa mudança de pensamento através dos acontecimentos que colocam em cheque suas convicções sobre sua moral e seu passado. Aliás, esse acaba sendo o ponto central da trama, a forma como os personagens trabalham seu passado e deixam isso influenciar em seu presente.
Isso acaba sendo refletido nos problemas de vida de seus alunos, afinal temos uma nova versão do dojo, dessa vez formada por alunos que sofrem bullying na escola. Dentre eles, os que mais se destacam e praticamente vivenciam as consequências do passado de Johnny em suas novas filosofias de vida são Miguel, Hawk e Aisha. Todos acabam sendo fragmentos do que é o Cobra Kai em sua essência, a partir do momento em que suas vidas mudam ao responderem violência com mais violência. Num primeiro momento parece ser uma solução fácil, afinal podem se defender daqui em diante, porém a série acerta muito bem em mostrar que a vida não é tão simples, e que toda a escalada da violência tem suas consequências, afinal seus problemas não desapareçam, só mudaram de lugar. Johnny não sabia, mas estava criando um monstro naqueles alunos que tanto se afeiçoou, através de um ciclo de ódio que poderia os consumir caso nada fosse feito

Do outro lado da trama, vemos Daniel LaRusso, protagonista do filme original e que é retratado aqui como um bem sucedido dono de uma concessionária, conquistando tudo que sempre quis durante sua vida. Ao reencontrar Johnny e o recém reaberto Cobra Kai, ele decide fazer de tudo para fechar o dojo e tirar isso de vez de sua vida. Nesse ponto da trama vemos que os dois personagens, embora se odeiem, são muito parecidos em suas dificuldades de lidarem com o passado. Por mais bem sucedido que seja, Daniel não descansa enquanto não conseguir fechar o dojo de vez, mesmo que tenha que recorrer a métodos sujos para isso, como forçar o aumento do aluguel das propriedades do local sem se importar com os outros comerciantes que são influenciados com isso, ou fazer de tudo para pintar Johnny como alguém maligno para fazer com que os organizadores do torneio de caratê mantenham o banimento ao seu dojo. A trama faz um bom trabalho em retratar Daniel como um babaca num primeiro momento (coisa que não é difícil, basta assistir o primeiro filme pra perceber isso), mas logo depois mostrar que o personagem também possui seus tons de cinza, suas falhas e seus próprios demônios para lidar.

A primeira temporada de Cobra Kai acaba por ser uma excelente introdução de todos os conceitos da franquia ao mundo moderno, sem abrir mão do que a tornou popular. O elenco juvenil da trama é simplesmente incrível, e mal posso esperar pra ver os desdobramentos do relacionamento de Miguel e Samantha e de sua rivalidade com o filho de seu sensei, Robby; as consequências que a nova personalidade de Hawk trará para sua vida, já que sua agressividade só cresce junto com seu rancor pelo bullying sofrido; e o final inacreditável com o retorno de John Kreese, mentor de Johnny, e os (grandes) problemas que isso trará para sua vida. Mal posso esperar para ver a segunda temporada, talvez eu já vá fazer isso agora.

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?