Crítica | Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – J.K. Rowling

Crítica | Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – J.K. Rowling

  Falar sobre o Prisioneiro de Azkaban é um pouco complicado para mim. É difícil descrever suas qualidades técnicas (que transbordam por aqui) sem querer me estender para um tomo afetivo sobre minha relação com ele. Mas após diversas revisões para deixar tudo mais sucinto e livre de spoilers sem necessidade para os leitores de primeira viagem, consegui transcrever o por quê dele ser um dos melhores do gênero nos últimos 30 anos, no mínimo.

Com um assassino a solta e Harry se familiarizando ainda mais com o mundo bruxo, ele segue para a escola de magia e bruxaria que está com segurança dobrada enquanto tenta desvendar mais sobre este suposto criminoso ao mesmo tempo em que precisa se concentrar no ano letivo.

As coisas já ficam interessantes por aqui. De cara já fica visível a mudança no tom que a J.K. Rowling prega nos capítulos, fazendo aquela mudança de livro infantil para infanto-juvenil e adicionando elementos mais sérios e maduros na saga. Sirius, Lupin, o Vira-Tempo, os dementadores, os animagos. Elementos estes que são colocados para fazer o enredo andar, e não adicionados aleatoriamente apenas pra rechear a criação daquele universo.

Com Voldemort ficando em segundo plano aqui, ela usa o espaço disponível para aprofundar ainda mais seus personagens e nos contar sobre o passado envolvendo o grupo de amigos do pai de Harry. É impossível não gostar dos Marotos tamanho o cuidado e carinho com que ela os constrói e os coloca no arco envolvendo a traição que culminou na morte dos pais do protagonista. É feito de maneira cuidadosa e paciente através de pistas e passagens discretas que me lembra os romances policiais de investigação, com uma reviravolta muito bem encaixada na narrativa.

Com estes acontecimentos em volta do mundo bruxo envolvendo Harry diretamente, ela não usa o protagonista apenas como artifício pra fazer a história seguir para frente e o evolui de forma orgânica, usando-o como a transição para a fase juvenil sem cair no artifício barato de “Protagonista Porque Sim”.

Temos Rony sendo jogado no arco principal através das tais pistas que a autora deixa, ganhando então tanta atenção quanto o próprio Harry através de toda a sub-trama envolvendo a família Weasley e a forma em como cada um leva a vida. É incrível como cada Weasley dentro de Hogwarts não está ali apenas por estar. Na verdade, nada aqui neste terceiro capítulo da saga sofre desse mal.

Hermione permanece mostrando porque veio, com Rowling usando-a para expandir ainda mais o nosso conhecimento sobre seu universo, mesclando-o com o argumento central do livro. As aulas de Hogwarts nos ajudam a entender os fatos da história do enredo, quase como se aprendêssemos junto com os alunos e ansiamos por mais ao ter percepção disso, coisa que também acontece em O Cálice de Fogo. São os arcos e elementos secundários convergindo com o argumento principal, deixando tudo redondinho e natural. Até mesmo a tormenta de Draco, Snape e o Campeonato de Quadribol (prazeroso de se acompanhar) tem importância para a trama.

Em termos narrativos, as coisas aqui poderiam ser usadas em padrões didáticos de tão excelente e exemplar, com o livro tendo o tamanho certeiro. As descrições de Rowling sobre sua criação não são arrastadas como a maioria das obras dentro do gênero. Vale ressaltar, além da sua mão certeira pra conduzir tudo com maestria, que essa transição e amadurecimento da saga ajudou para que o problema dos diálogos idênticos fosse levemente solucionado.

O Prisioneiro de Azkaban está entre minhas 5 obras literárias favoritas. Não só por ter sido crucial na minha vida quando o li na adolescência, mas pela qualidade inegável que ele tem em relação aos demais da saga e seu gênero como um todo. Quanto mais o revisito, melhor fica. Foi o divisor de águas da franquia e um exemplo de como atravessar uma barreira tão delicada que é a mudança da infância para a adolescência, sendo um prato cheio para os sortudos que podem experimentá-lo pela primeira vez.

Astranum

Mesmo tendo iniciado minha jornada mundo afora bem cedo através de uma escola de magia num castelo camuflado, foi numa colina em Long Island com campos de morangos que encontrei o lugar ao qual posso agradeçer por ter feito parte da minha juventude. Hoje vivo transitando entre o Templo do Ar do Leste e uma cafeteria em Shibuya.