Crítica | WandaVision: 1×01 “Gravado ao Vivo com Plateia” e 1×02 “Não Mude de Canal”

  Senti algo após o beijo de Steve e Peggy. Enquanto os créditos de Ultimato passavam, começava em mim uma crise de existência. Ter acompanhado todo o Universo Cinematográfico Marvel enquanto eu transitava pelas fases de crescimento moldou boa parte de quem sou, e digo com tranquilidade que vivi uma “era de ouro” do gênero, mas admito que, hoje, beirando os 22 anos, senti como se tivesse cansado disso tudo. Não pelo “amadurecimento” e aceitações de nossa vida adulta (sério, alguém hoje em dia argumenta que coisas de super-herói são para crianças?), mas por dois fatores:


1) Os filmes começaram a soar um tanto… iguais.

Ah, a polêmica “Fórmula Marvel”. Responsável por ser o principal argumentos dos “Dczetes” em suas cruzadas imbecis pela internet, esse recurso sempre foi criticado mas, o tempo todo, pela vertente errada. A fórmula em si nunca foi o problema, mas sim sua substância, seu conteúdo. Afinal, se todos os filmes da Marvel seguem esta receita, porque alguns são mais pisoteados do que outros? Não me levem a mal, mas eu aposto que posso te contar o filme inteiro de Viúva Negra sem ele ainda nem ter lançado…


2) Homem-Aranha: Longe de Casa.

O aracnídeo é o herói da minha vida, e o segundo filme do Sam Raimi é o melhor filme já feito para o gênero e um dos melhores já feitos pro cinema (isso não está aberto a discussão). Mas sério, Marvel? Construir todo um enredo com um meio-fim catártico onde meio universo desaparece, nos levando a estourar os miolos com teorias, fazer você quebrar recordes atrás de recordes e torcer pelos personagens que nos apegamos para no fim resumir tudo como… BLIP?!?!?!

Esses pontos, juntos com a ressaca do gênero que sofri pós-Ultimato e o surto do Covid (o fato de 2020 não ter lançado nenhum filme do UCM, o que tirou dos centros das atenções) foi um impulso a mais para me fazer perder um pouco do apreço pelo sabor do universo que a Disney/Marvel construíram. As notícias sobre a expansão desse universo para o mundo das séries, anúncios e logotipos de novos filmes também não foram o bastante, e tudo piorou com a morte do já eterno Chadewick Boseman. Era como se estivessem conspirando para que eu perdesse o interesse por completo e abraçasse a chatice que é a vida adulta.

E então veio a sétima e última temporada de Agents Of S.H.I.E.L.D, que me jogou de volta de uma vez. Sem enrolações agora, esta série é uma das criações mais subestimadas da história, e uma fagulha de esperança nas séries que haviam sido anunciadas se acendeu. Novamente, o problema nunca foi a fórmula, mas o conteúdo que vem junto com ela, e é com muito gosto que eu digo que WandaVision fortaleceu ainda mais essa fagulha. Resta saber se ela vai ser transformada em um fogo eufórico e incandescente ou ser apagada novamente.


1×01 “Episódio 1” & 1×02 “Episódio 2”

A ideia era fazer a crítica de cada um separadamente, mas após o término do segundo episódio fica claro que eles funcionam como um. Cada um tem seu início, meio e fim, mas são quase idênticos em sua forma de contar que algo está acontecendo com Wanda enquanto ela tenta se esconder viver uma vida perfeita ao lado de Visão, usando os anos 50/60 como pano de fundo para esses dois primeiros episódios.

E que uso fantástico! A roteirista Jac Schaeffer joga os dois protagonistas numa sitcom a lá “The Dick Van Dyke Show” e utiliza de timings cômicos e atuações que não caem no anacronismo. Elizabeth Olsen e Paul Bettany estão claramente à vontade fazendo papéis de atores da época e se divertem em tela. Olsen age com ortodoxia (pelo menos até certos pontos) e Bettany como um trabalhador americano que tenta se encaixar no mundo dos humanos. E acredite quando eu digo, todas as cenas do casal funcionam, desde o início primeiro episódio quando chegam em sua casa nova até o final do segundo quando as cores chegam nas telas. É muito prazeroso assistir como eles se esforçam para não deixarem a vizinhança perceber a anomalia de cada um, agindo com uma certa inocência na maior parte do tempo e usando os poderes em situações inusitadas. Sem raios e explosões, mas sim truques de mágica feitos para impressionar o pessoal do bairro de formas excêntricas. Olsen e Bettany mostram que têm uma química absurda para contracenarem juntos fazendo esses dois personagens, e já se tornaram minha dupla favorita do UCM.

Muito bom também é o jogo de câmera que o diretor Matt Shakman faz para simular um estúdio dos anos 50, com câmeras estáticas e sem muitas diferenças de foco, que funcionam em sintonia com a trilha composta por Christophe Beck (Homem-Formiga) e as risadas de fundo, que foi uma ideia genial em mostrar como piadas de sitcons podem se mostrar enlatadas. Toda a composição dessas cenas funciona de forma orgânica, como se estivéssemos de fato dentro de algum delírio de Maximoff. Até os momentos de semi-despertar da vingadora.

Quando acontecem, toda aquela atmosfera sessentista é interrompida e a câmera começa a focar no rosto de Wanda cada vez mais enquanto sua inocência é colocada a prova, enquanto a mesma não sabe como reagir a simples perguntas sobre seu passado, como se ela não se lembrasse. Ou não quisesse lembrar, como vemos no final do “Episódio 2”, onde ela remodela sua realidade para escapar da original.  Muito sútil também foi a inserção de cores em certos elementos que contrastam com o preto e branco das televisões da época, preenchendo apenas aquilo que não se encaixam nas cenas, como se não devessem estar ali. Como se não fossem daquele tempo.

“No”

Ao final do segundo episódio, uma coisa fica clara: Wanda não está bem. Uma simples expressão estática de Olsen fora o bastante para transmitir algo que nenhum dos filmes do UCM haviam conseguido fazer em mim: temer um personagem. Eu confesso que mesmo quando Thanos apareceu pela primeira vez eu fiquei assustado, senti a ameaça do Titã Louco, mas já sabia que no final tudo acabaria bem, mesmo com seu meio sendo o que foi. Mas aqui é diferente, não dá pra saber no que Wanda vai acabar se tornando, nem nas consequências que isso vai trazer pra Terra 616.

WandaVision é diferente de qualquer coisa que a Marvel fez até então. Levando em conta a maior base de “fãs” da Marvel nos dias de hoje, o que era esperado para eles devia ser algo como um prato de “Doutor Aranha” com “Quarteto Vingativo” mexidos com X-Men e temperado com confusão narrativa. Parece que nunca viram uma Agent Carter ou Legion. Uma pena, pois estão perdendo séries estupendas por priorizarem fan service barato à personagens cativantes. No final, para quem viu e prestou a devida atenção que essa maluquice aqui merece, fica algumas perguntas: O que diabos está acontecendo com a Wanda? Por que estão ali? Quanto tempo até ela inserir seu falecido irmão nessa realidade? Por que a S.W.O.R.D. está envolvida? Muitas teorias (algumas sem pé nem cabeça) e questões em aberto já permeiam a série, que pode já ter estabelecido um padrão de qualidade acima do normal em menos de 40 minutos. Se isso vai se manter, só vendo o restante para saber. Que venha o episódio três, então!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?