Falcão e o Soldado Invernal #1 – Como viver depois de uma guerra?

Falcão e o Soldado Invernal #1 – Como viver depois de uma guerra?

  Muito bem, passado todo o hate que levei por conta dos meus pensamentos sobre o (intocável) Snyder Cut, já estava me esquecendo do lançamento de Falcão e o Soldado Invernal, nova série da Marvel que vem com a premissa de continuar mostrando o impacto que a batalha contra Thanos causou ao mundo, dessa vez sob a visão dos personagens que dão nome a série, e de um jeito bem mais enfático do que vínhamos acompanhando desde Ultimato.

Para começo de conversa, acho importante destacar em como esse primeiro episódio foi bem em contar a história usando duas vertentes: uma é aquela que nós vemos sendo contada através dos diálogos entre os personagens, das ações e do desenrolar da trama; e a outra é a história que nos é contada através dos detalhes, e para uma estreia foi ótimo ver que ambos se encaixaram muito bem e de forma natural. Muitas produções da Marvel possuem essa característica negativa de serem bem superficiais ao contarem a história direto ao ponto, deixando uma leve sensação de que estamos vendo um filme de “sessão da tarde”, onde é melhor desligar o cérebro e se divertir com a ação do que se importar com uma história que acaba sendo mais rasa. Não tem nenhum problema nisso, porém é bom encontrar numa obra esse equilíbrio entre uma narrativa bem amarrada pelos detalhes e a ação que nos entretém.

Seguindo pela história que nos é contada diretamente, já começamos o episódio vendo o que a série planeja nos contar, as consequências diretas do estalar de dedos de Thanos que evaporou metade da população do mundo, e o fato dessas pessoas voltando repentinamente depois de cinco anos, e em como isso afetará o povo americano. Isso é enfatizado com a notícia dada pelo governo de que o Capitão América se sacrificou para que todos voltassem. Embora estejam vivendo um “final feliz”, com todos vivos novamente, o povo sofre sua primeira grande consequência disso, a perda de seu maior herói, de seu ícone, do sentinela da liberdade. E mesmo assim, com a falta que esse ícone faz ao mundo, com Steve Rogers o escolhendo para assumir esse papel, Sam Wilson rejeita ao chamado, por achar que não está a altura de tamanha honra, pois para ele só existe um Capitão América.

É muito interessante vermos esse lado humano dos personagens que acabam passando batido em meio a tantas batalhas contra robôs malucos ou seres do espaço dispostos a destruir o mundo, podermos conhecer mais os medos de nossos personagens preferidos, suas fraquezas e preocupações, e é ai que história do Bucky começa a ser contada nessa série. Ele é alguém que em meio a tanto caos acabou sobrando, sem rumo ou objetivo próprio. Porque parem pra pensar, Bucky serviu ao lado de Steve na segunda guerra mundial, reapareceu décadas depois como um soldado aprimorado que sofreu lavagem cerebral e estava sendo usado pela HIDRA, e no fim das contas ajudou os heróis a salvar o mundo. Porém, agora ele é um soldado considerado traidor da pátria sem uma guerra para lutar, vemos ele tentando recomeçar sua vida buscando redenção pelos vários crimes que cometeu como Soldado Invernal, e é aí que podemos notar o principal tema desse episódio: o impacto e as consequências dos rumos que nossas vidas tomam.

O que um soldado faz sem uma guerra para lutar?

Podemos ver esse paralelo também na vida do Sam, porque quando ele decide voltar pra casa e ajudar a irmã e os sobrinhos, ele percebe que as coisas não podem voltar a ser como antes, porque enquanto ele salvava o mundo, a vida normal das pessoas continuou por mais difícil que fosse. Aquela cena do empréstimo no banco é bem simbólica em relação a isso, porque não interessa tudo que ele fez pelas pessoas e o quanto ele arriscou a vida por elas, a burocracia e o peso da vida comum não se importam com seus problemas.Em seu acordo com o governo, ele tem que caçar todos aqueles que beneficiou ou prejudicou durante sua vida como Soldado Invernal, porém sempre dentro da lei e dizendo para essas pessoas que agora ele é uma nova pessoa, e nisso vão desde políticos corruptos ajudados pela HIDRA até o pai de um jovem que morreu por estar no lugar errado na hora errada. É notável o peso na consciência de Bucky, porque ele tem total noção de todas as pessoas que matou, e mesmo que saibam que ele estava sendo controlado, isso não muda o fato de que essas pessoas não voltarão, e todas essas mortes estarão sempre em sua mente, o sangue nunca sairá de suas mãos e ele não sabe como conviver com isso.

Enquanto isso, a história vai sendo contada de maneira indireta através dos pequenos detalhes que não passam despercebidos dos fãs, através de diversos diálogos de filmes anteriores. Um bom exemplo disso é quando Bucky acorda do pesadelo e ele está dormindo no chão, isso volta diretamente para o diálogo do Sam com o Steve quando se conheceram, sobre a dificuldade de dormir porque na guerra dormiam no chão, com a cabeça apoiada em uma pedra, simbolizando a dificuldade dos soldados voltarem a vida normal depois de ver o que viram na guerra. Isso me lembrou outra frase do Ultron no segundo filme dos Vingadores, quando ele vê o Capitão América e o chama de “O Homem Santificado”, que finge não conseguir viver sem uma guerra, e é justamente isso que acontece com o Bucky. Ele é um soldado, e é isso que ele sabe fazer da vida, e o que um soldado faz quando não tem uma guerra para lutar?

Essa reação ao novo Cap. América nos passa tantas coisas de uma só vez. Raiva, frustração, tristeza, arrependimento, angústia.

Gostei bastante desse episódio. As cenas de ação são no padrão Marvel, bem feitas como sempre, e o visual do Falcão está cada vez melhor, o que é esperado afinal chegou a hora dele brilhar. Tô bem curioso para ver como os dois protagonistas vão interagir entre si, pois eles carregam o legado do Capitão América pelos laços que possuem com ele e, mesmo que não se deem muito bem, precisam honrar esse legado, quem sabe construindo uma amizade no caminho. Vemos um vislumbre dos Apátridas, o grupo de vilões na série, mas ainda sem uma grande perspectiva ou objetivo além de parecer apenas um grupo terrorista, então precisamos esperar pra ver, continuo bem curioso. E pra fechar o episódio voltando para as consequências de suas ações, o Sam vê que o problema que criou ao recusar o escudo, após confiar no governo e entregar o escudo para um museu, um novo Capitão América é anunciado na TV. Um novo ícone para o povo e totalmente obediente ao governo, e um grande problema para o legado do herói.

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?