Reload! #6 – Snyder Cut vem aí, infelizmente

Reload! #6 – Snyder Cut vem aí, infelizmente

  E chegamos ao fatídico dia 18 de março, o lançamento do famigerado Liga da Justiça de Zack Snyder, o popular Snyder Cut, tão esperado e pedido pelos fãs, inclusive com uma campanha em massa que fez com que a Warner cedesse a pressão, acabando por dar luz verde para que o filme fosse remontado com todas as cenas que ficaram de fora da versão de 2017, adaptada por Joss Whedon, trazendo toda a história original pensada por Zack Snyder, e é triste pensar que vamos mesmo ver esse filme.

Bom, queria destacar em primeiro lugar uma reclamação recorrente dos fãs da DC, e que com certeza continuará nesse filme, que é a distância das histórias apresentadas nos filmes do DCEU em relação as HQs. É claro que filme nenhum deve ser construído 100% fiel aos quadrinhos, até por isso leva o nome de adaptação, porém é necessário pelo menos um cuidado pelo material base, um olhar mais zeloso nesse sentido, para fazer com que o filme não deixe de ser uma adaptação e passe a ser uma releitura, ignorando boa parte do que torna esses personagens serem o que são, icônicos.

Um exemplo desse erro constante dos filmes da DC é a origem do Superman contada em O Homem de Aço e Batman vs Superman, onde vemos um Clark Kent desencorajado pelos pais a se tornar um herói, porque não deve nada as pessoas que salva, e sendo sempre orientado a esconder seus poderes, além de descobrir como usá-los na base da tentativa e erro, enquanto nos quadrinhos vemos justamente o contrário, com seus pais lhe ensinando a como controlar suas habilidades e lhe mostrando a importância de ser um herói, um salvador para os humanos que não podem se defender por conta própria. A comparação é inevitável por ser a única outra grande produtora de filmes de heróis, mas nos filmes da Marvel vemos diversos exemplos de materiais adaptados e abordados conforme a visão do diretor, porém sem perder sua base, sua essência. O exemplo mais recente disso é a série da Feiticeira Escarlate, contando e aprofundando a história da personagem de uma maneira bem diferente dos quadrinhos, porém continuamos enxergando a personagem na interpretação de Elizabeth Olsen, porque sua base está toda ali, bem adaptada.

Visualmente mais bem feito, porém continua com um desenvolvimento péssimo.

Outro problema do filme de 2017 que muito provavelmente continuará na “nova versão” é a falta de roteiro e atuações coesas. Em entrevistas dadas no começo do ano, o diretor deixou claro que veríamos apenas uma cena nova além de tudo que foi gravado no material original, porém cortado naquele filme, que é essa cena do futuro pós-apocalíptico com o Coringa. De resto, teremos longuíssimas quatro horas de câmera lenta num enquadramento bizarro para um filme em 2021. E com isso vem junto a péssima atuação do Ezra Miller como Flash, um Batman sem credibilidade nenhuma em tela e um Superman que não brilha em cena, que não passa ao espectador uma sensação de esperança. As únicas coisas que se salvam ainda são a Gal Gadot como Mulher Maravilha e o Aquaman de Jason Momoa, que conseguiram mostrar do que são capazes em meio a um mar de lama.

Não podemos, é claro, esquecer da narrativa do filme que já não sabia para onde ia no filme original, e que no fim das contas acabava por ser apenas a história de um bando de seres poderosos lutando contra o Lobo da Estepe porque sim, afinal ele é do mal e temos que detê-lo. Assim mesmo, super raso e sem conflitos pessoais ou conflitos gerais pela falta que o Superman faz ao mundo por exemplo, só que agora serão quatro horas de roteiro perdido e raso como um pires.

E por falar em escolhas bizarras por parte da direção do filme, um dos motivos principais do DCEU dar errado desde que foi concebido vem mais forte do que nunca nesse filme, e tem nome e sobrenome. Eu entendo que os fãs mais cults acreditem piamente que Zack Snyder é um excelente diretor e o nome perfeito para dar vida para os filmes da DC, mostrar para o mundo como são os quadrinhos para adultos e outras maluquices que vejo vocês falando Twitter afora, mas tirando o filme 300, que a forma de contar a história casou perfeitamente com o estilo do diretor e por isso fez sucesso, todos os outros trabalhos dele acabam fracassando por esse exagero visual que insiste em mostrar. Na minha visão ele é o Makoto Shinkai dos live-actions, onde qualquer frame de todos os seus filmes dariam um ótimo papel de parede, porém o aspecto narrativo dos filmes consegue ser um lixo completo. Veremos bastante fanservices desnecessários, muito slow motion para cenas sem importância alguma e muito, mas muito cinza, afinal o mundo do Snyder sempre tem que ser bem triste e sombrio, em uma reflexão sobre a decadência humana.

Eu não consigo pensar que o motivo do Superman estar com esse traje é apenas pelo Snyder gostar de preto e branco.

Temos um outo ponto que não é nem um problema com o filme em si, mas sim com as consequências dele vir a tona finalmente, principalmente no momento em que nos encontramos. O filme é “lançado” em meio a uma pandemia, com cinemas praticamente fechados e uma expectativa de lucro bem baixa. Somado a isso, temos ainda a dinheiro que foi gasto com pós produção, novos efeitos visuais e refilmagens. Dificilmente a Warner vai ter algum lucro realmente expressivo com esse filme, algo que valha a pena o trabalho para fazer com que ele visse a luz do dia, dinheiro esse que podia muito bem estar sendo focado em novos projetos para o estúdio, afinal a concorrente não para de crescer cada vez mais a cada ano, enquanto a DC não consegue fazer pelo menos uma sequência de filmes que valide seus personagens, e isso é realmente preocupante.

Bom, tirando Aquaman e os dois filmes da Mulher Maravilha, não vejo nenhum outro grande sucesso que demonstre que vale a pena continuar insistindo nesse passado que deveria ter sido esquecido, ao invés de focar os recursos limitados que nossa situação atual nos permite para contar novas histórias (de preferência sem mais Snyder).

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?