Reload! #7 – O mercado de mangás pós-pandemia

Reload! #7 – O mercado de mangás pós-pandemia

Demorei para fazer esse texto enquanto esperava a vacinação pelo mundo avançar mais um pouco para poder formar uma opinião melhor sobre o assunto, vendo como estamos para fazer uma previsão melhor, mas aqui no Brasil infelizmente nada avança (maldito governo), então vamos lá. Com o país vivendo a maior crise de sua história, todos os mercados de entretenimento acabaram sendo afetados por ela, e os mangás não escaparam desse caos. Com um mercado que já vinha com uma crise própria antes da pandemia, sem encontrar uma solução para aumentar suas vendas sem continuar aumentando o preço do produto, os mangás acabaram levando um golpe de misericórdia, com mais um grande problema para sua lista. A pergunta que fica é: O que fazer agora que o mercado editorial chegou ao seu limite e não encontra mais um jeito viável de se sustentar?

Bom, primeiro temos que contextualizar o cenário do mercado antes do COVID, temos de entender o passado para projetar o futuro, e neste caso o mercado editorial já vinha de uma crise e não é de agora. Os consumidores não se renovam há anos e hoje o público é majoritariamente adulto, e as plataformas de divulgação não conseguem ou não se importam em chegar no público em geral para trazer uma galera mais jovem pra ler, o que torna mangá cada vez mais um nicho fechado, e como se não bastasse isso tudo, toda a logística envolvendo a produção e distribuição de mangás no Brasil faz com que cada vez mais eles sejam um artigo de luxo, porque tudo que passe por burocracia no Brasil é feito de sacanagem, tanto pelo custo quanto pela dificuldade de fazer, afastando até mesmo os fãs mais antigos e sendo vendido para um mercado cada vez mais seleto de colecionadores.

Mesmo assim, por incrível que pareça, as editoras continuavam mantendo esse padrão, seja por falta de uma estratégia melhor ou apenas por preguiça mesmo, afinal se estivesse dando prejuízo não teria sido mantido, ninguém abre empresa pra perder dinheiro. Porém, com a pandemia, todo o ciclo que ainda mantinha esse sistema funcionando foi pro espaço, com o preço da matéria prima disparando, dólar muito alto dificultando a importação, gráficas diminuindo o tempo de trabalho isso quando não param de vez, além dos custos de logística que assim como todo o resto acabaram subindo, e a onda de fechamento das livrarias e lojas especializadas pelo Brasil acabou de vez o acesso mais fácil do consumidor final ao produto.

Com os preços atuais, é pra ler chorando mesmo.

E não apenas por ser uma crise sanitária, também é uma crise financeira que acaba afetando muito na nossa decisão de compra, afinal entre comprar um mangá ou comprar comida não tem muita escolha né, é um supérfluo então nunca será prioridade, e isso só mostra que essa estratégia de trazer um produto de luxo com preços altos é uma estratégia falha. Parando para pensar, nosso mercado já começou do jeito errado, porque no Japão o primeiro passo são as revistas semanais, vulgo Shonen Jump, que seria uma coletânea dos capítulos da semana dos principais mangás, em uma qualidade baixa e feita apenas para quem quer ler a história, pra só depois virem os volumes de um desses mangás em específico para quem quer colecionar. E esse é o ponto, nós não temos no nosso mercado um produto equivalente que sirva somente para ler a história. Já pulamos direto para as coleções e isso dificulta do produto chegar ao público em geral, porque o mangá precisa vir numa qualidade ótima para ser colecionado, limitando bastante o público e a quantidade de obras, afinal as editoras só vão trazer o que dará mais certeza de venda, então é todo um ciclo funcionando apenas dentro de uma bolha, que não se sustenta mais porque não há renovação na bolha e essa bolha está cada vez menos descapitalizada para gastar com mangá.

Uma alternativa que as editoras acharam para tentar acostumar o público a conhecer as histórias sem precisar recorrer ao volumes foram os mangás digitais, até com a JBC publicando em simultâneo algumas obras como por exemplo Eden’s Zero pelo mísero valor de 3 reais, porém o problema dessa ideia é cultural. O scan surgiu bem antes de cogitarem usar o mangá digital, e muita gente conheceu grandes obras através dos scans e se acostumou a ler assim, então porque eu vou pagar pra ler algo que posso ler de graça em centenas de sites internet afora? Mas por conta disso, a ideia é uma furada? Não necessariamente. Cabe as editoras montarem um plano melhor de divulgação para essa plataforma, até porque pelo visto os mangás digitais da Panini existem há anos porém nunca foram de fato divulgados, e eu mesmo só fui saber que era tão barato ler Eden’s Zero digitalmente pesquisando para fazer esse texto, então está faltando um pouco mais de esforço das editoras para fazer com que o público se interesse em consumir o produto oficial. Porém, eles não são os únicos culpados, porque querendo ou não scan continua sendo pirataria, e eu não vou ser hipócrita dizendo que não consumo, afinal conheci e li Naruto inteiro através deles, é um costume que todo mundo tem ou já teve na vida, mas já está na hora disso mudar. Parece um pouco ingênuo esperar que as pessoas deixem de recorrer aos scans apenas por ser o certo a se fazer, mas não há como nós, como consumidores, reclamarmos que as editoras não oferecem uma forma oficial de consumo por um preço viável se continuarmos apelando para o ilegal, cabe do leitor cobrar a editora um produto melhor financeiramente falando, abandonando os scans para isso, se dispondo a comprar o oficial.

O que temos de concordar é que, seja lá qual for o método, não vão haver condições do mercado continuar igual nos próximos anos. A maioria do público consumidor não tem como manter um hobby que fica cada vez mais caro ano após ano, e que não vai ser mais do que isso, um hobby, e as editoras podem não estar percebendo mas então cavando a própria cova ao oferecer como única opção um produto de luxo. Precisamos estabelecer uma plataforma de primeiro contato com essas obras, uma porta de entrada para quem está interessado em usar da função primária de um mangá, ler e apreciar uma boa história. Temos toda uma geração nova de leitores que já nasceu acostumada aos scans ou até nunca se interessou por um, apenas conhece suas adaptações em anime, então porque não apresentar essas histórias para um público que já consome as adaptações na Crunchyroll ou na Netflix por exemplo, já acostumados com o digital?

Não estranhe jovem Midoriya, é o mercado se reinventando!

Enfim, o cenário atual é bem bagunçado, no mínimo. Não são poucos os relatos de mangás esgotados com alguns dias de lançamento, isso até mesmo para assinantes, além dos diversos títulos reimpressos e mesmo assim atrasados pela falta de matéria prima para produção, além de estar difícil comprar por um preço decente, é ainda mais difícil encontrar onde comprar, então é algo que precisa ser revisto. E vocês, o que acham? Os formatos digitais são a solução mesmo, pensam que o público se acostumaria a consumir algo oficial e pago mesmo concorrendo a pirataria? ou é complicado fazer com que o leitor acostumado a ler algo físico mude para o digital devido ao preço do produto físico estar muito salgado? Deixem suas opiniões nos comentários, queremos ouvir vocês leitores, isso sim seria uma ajuda absurda!
Até a próxima!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?