The Batman | É bom, mas….

The Batman | É bom, mas….

Uma produção com uma mudança abrupta de ator principal, pra dar lugar a um ator marcado por um papel questionável, a desconfiança dos fãs com os materiais de qualidade duvidosa da DC nos cinemas e um público esperando a perfeição, com toda a passionalidade que lhes é esperada. Esse era o clima que rondava The Batman, a nova versão do homem-morcego a ganhar as telonas nesse mês de março. Surpreendendo, ou até cumprindo a expectativa dos fãs do vigilante, o resultado foi… bom!
Bom, mas não ótimo.

Então, gostaria de começar essa crítica falando do que eu gostei no filme, até porque ele é um filme bom, mas não perfeito como vem sendo pintado por aí, longe disso. Porém, existem aspectos muito interessantes que valem ser ressaltados, como a ambientação do filme. Gotham finalmente pôde ser vista como ela sempre foi idealizada pelos fãs, como um lugar sujo, imerso na escuridão literalmente e figurativamente, através da corrupção e de toda a rede de poder que comanda a cidade por baixo dos panos. Embora pareça contraditório com esse clima mais denso, ao assistir você sente a cidade mais viva do que nunca, quase como um personagem a mais, dando forma as engrenagens que estão sempre sendo giradas pelos mafiosos e políticos de índole questionável.

Essa ambientação de Gotham ajuda a formar a construção de personagem de seus habitantes, que aparentam estar cada vez mais sem paciência e esperança de que algo melhore, de que em algum momento suas vidas saiam dessa escuridão, estando sempre no aguardo de que um ícone surja e os tire dessa situação, que durante o filme esse papel mudava entre o Batman e o Charada, porém eu penso que esse aspecto não foi muito abordado, acabou ficando mais nas entrelinhas, nos detalhes.

E por falar em personagens, é impressionante como o nível de atuação neste filme está lá no alto. Todos fazem um excelente  trabalho dentro da proposta da obra, fazendo com que nenhum personagem acabe destoando dos demais neste quesito. Entretanto, não podemos deixar de falar como alguns desses personagens, embora muito bem interpretados, foram mal construídos narrativamente falando, começando pelo Batman.

O filme foca tanto na visão do vigilante que mal vemos o lado Bruce Wayne de sua persona ter algum desenvolvimento. Certo, é compreensível que ali é um Batman de começo de carreira, completamente focado no combate ao crime, mas fez falta essa dualidade, o eterno questionamento de qual faceta seria sua máscara e qual é seu “eu” verdadeiro. Bruce Wayne existe sim nesse filme, mas está ali só como uma figura simbólica, uma conexão direta do personagem principal com o gancho final da história, porém não chega a ser um personagem de fato.

Outro personagem que me pareceu desperdiçado foi o Pinguim. Ele é o tempo todo citado como alguém influente no submundo de Gotham, uma pessoa que está interligando todas as pistas que levam a resposta final da trama, pra no fim das contas ter o grande papel de um tradutor de espanhol para um policial e um vigilante proclamado de “maior detetive do mundo”?

Só eu ou mais alguém achou essa cena muito idiota?

Depois disso tudo, você espera que ele vá desempenhar um papel maior na trama, como uma figura sombria com cada vez mais poder, visto que o filme deixava mais e mais claro que Falconi morreria em algum momento. Até que, do nada, após sua prisão, o mafioso é morto em um ataque de raiva do Pinguim, fazendo com que ele seja preso em seguida. Foi tudo tão aleatório nesse momento que eu fiquei sem reação. Dava para ter formulado um final melhor no filme para ambos os personagens, mesmo que fique bem claro pelo teor do filme que esse assassinato passará impune.

Agora vem a parte da crítica onde eu provavelmente serei apedrejado, mas eu não gostei da história desse filme, do roteiro. Porém, não pelas ideias apresentadas, mas sim pela forma como foram desenvolvidas. A sensação que eu fiquei neste filme foi a mesma de Homem-Aranha 3, porém por motivos diferentes. Enquanto lá o roteiro não foi bem trabalhado pelo foco em fanservices, aqui a narrativa não é muito bem feita por conta do destaque em deixar tudo tão “adulto” e cult quanto possível, fazendo com que os buracos do roteiro fiquem em segundo plano.

Explico.
Existem diversos momentos no filme em que os rumos da história não fazem sentido, seja por conveniências de roteiro para fazer com que o filme prossiga ou mesmo situações que não se justificam. Sei que devemos praticar a suspensão de descrença em certos casos, porém estar aberto a acreditar em coisas fora da realidade em prol da narrativa é diferente de tolerar más decisões.

Podemos citar diversas aqui, como por exemplo o Batman nunca ter tido a curiosidade de conhecer o passado de sua família a fundo, mesmo estando em atividade há dois anos ou pelo menos em todos os outros anos que passou como órfão. Afinal, ele é o único herdeiro das duas famílias mais influentes historicamente da cidade, famílias fundadoras de uma cidade entregue a corrupção. Seria impossível não terem sequer um resquício de envolvimento em algo, mas nunca houve curiosidade do personagem em pesquisar sobre suas origens, até ser conveniente para o roteiro.

Até vemos detalhes importantes da construção do Batman sendo bem retratados nessa proposta mais realista do filme, como sua capa virando um wingsuit para ele planar na fuga da polícia, e o medo de pular do alto do prédio em uma situação anti-instintiva, uma atitude que a mente dele entende que é completamente maluca; ou a cena do Batmóvel que é um dos pontos altos do filme, uma sequência que realmente imprime no público o que é o Batmóvel e o peso que ele tem, porém logo em seguida todo esse peso se esvai com a cena ridícula do interrogatório do Batman e do Gordon com o Pinguim, mostrando que toda aquela perseguição frenética e explosões pela cidade seria facilmente resolvida com um Google Tradutor.

Por conta dessa má execução do roteiro, um filme que tinha tudo para ser nota nove acaba escorregando e virando um seis, no máximo sete. As quase três horas de duração não são necessárias, poderia ser enxugado para duas horas sem nenhum problema, pois muitas vezes o filme é meio arrastado. Não vejo como o romance do filme pode ser considerado bom, afinal ele surge do nada, já que eles são o Batman e a Mulher Gato então eles tem que se relacionar em algum momento do filme, mesmo que essa relação comece sem motivo algum.

Mesmo com todos esses problemas, ainda é um bom filme para ver sem se prender muito aos detalhes, o famoso “filme para desligar o cérebro”. Não vá esperando por um filme de ação, porque além do fato de que a maioria dessas cenas de ação já estavam nos trailers, boa parte delas não acontece no centro da tela, você vê o Batman batendo em bandidos pela metade no canto da tela, quase que lutando sozinho ou apenas contra silhuetas humanas pra gente saber que tem outra pessoa em cena, isso sem contar a forma como ele se movimenta, quase um Robocop, apenas anda pra frente e luta, então definitivamente ação não é o foco aqui. Como citei acima, esse foco em deixar tudo o mais cult e “adulto” possível faz com que as pessoas não pensem ou ignorem essas falhas e queiram elevar o filme ao status de obra-prima, mas sinto informar que não chegamos nem perto disso. Mas é um bom filme, isso não é importante?

Mas isso é só a minha opinião, sintam se livres para discordar, os comentários estão sempre disponíveis pro feedback de vocês, fico no aguardo porque o que mais tem nesse filme é assunto pra discussão!

Até a próxima semana pessoal!

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?