Viúva Negra não teve o filme que merecia | Crítica

Viúva Negra não teve o filme que merecia | Crítica

E finalmente depois da Marvel quebrar a cabeça (e os nossos bolsos) sobre como lançar o filme e fazer tanta questão por seu lançamento, Viúva Negra está entre nós desde a semana e bem… se era esse o resultado final, seria melhor que esse filme nem tivesse visto a luz do dia.

Não me entendam mal, dentro do padrão da “fórmula Marvel”, o filme é até divertido, o que seria a função principal dos filmes da empresa. Porém um filme não devia se limitar somente a isso. Eu não gostaria de analisar pela ótica de necessidade de existir, já que tudo que vemos da Marvel sempre usa a motivação de fazer parte de um universo maior, de todo filme contar pequenos pedaços de uma história grandiosa enquanto nos mostra esses personagens evoluindo a margem desse enredo maior, mas acho que é a primeira vez que um filme do UCM tem como propósito principal desenvolver uma narrativa única, apenas para contar uma história fechada naquele filme de origem. E já de cara falha miseravelmente aqui, tornando tudo tão superficial quanto poderia ser.

Partindo do ponto de que ele não tinha a obrigação de se conectar a algo maior no futuro, nós entramos no filme podendo focar apenas na experiência, apreciar a história de uma personagem importante pro UCM, afinal a Natasha é uma das fundadoras dos Vingadores, quando o filme começou eu fui convencido de que viria algo bom ali, o início passou um bom feeling de Capitão América 2, eu fiquei esperando um filme nessa pegada.

Vemos todo aquele clima da infância da Natasha e de sua família feliz, até que essa felicidade é destruída numa perseguição frenética que leva sua família rumo a Cuba, depois de conseguir roubar dados da SHIELD. Até esse flashback de sua infância tínhamos um bom filme, mas a partir dali tudo que se seguia só me deixava mais confuso.

Essa fuga para um caminho de paz, distante de tudo me enganou legal sobre o que vinha pela frente

Tudo no filme acabava sendo muito raso, e por alguma razão os personagens pareciam bipolares em certos momentos, me dando a impressão que estavam rolando dois roteiros ao mesmo tempo que não conseguiam conversar entre si. Em um momento temos uma família que foi separada em prol do bem maior da pátria soviética, já em outros mudamos repentinamente para uma linha em que todos na família sabiam que tudo ali era apenas de fachada e que estava tudo bem nisso, afinal todos sabiam que era falso e vida que segue.

Os roteiristas pareciam meio perdidos sobre por qual caminho seguir e acabaram se atrapalhando, tornando tudo muito artificial. Vemos diversas vezes isso acontecendo, como quando a Natasha passa de uma pessoa que só quer ficar em paz, distante de tudo, para uma personagem em uma jornada de redenção apenas porque sim, mudando muito rápido de um extremo ao outro sem um motivo profundo para isso.

Outro problema visível do filme são as conversas paralelas que quebram o clima que a narrativa se propõe a montar, como quando Natasha e sua irmã estão naquela loja de conveniência e começam a discutir onde estava Natasha enquanto os problemas criados pela sala vermelha continuavam ressoando pelo mundo, e nisso entra a piada sobre suas poses de super herói. Não sei, me pareceu forçado naquele momento, deixou a cena deslocada para a mensagem que o filme queria passar naquele momento. Esse diálogo e os outros sobre a jaqueta nova me lembraram bastante os diálogos paralelos entre Thor e Loki durante seus filmes, principalmente no terceiro filme.

A química entre as atrizes é inegável, porém o roteiro não faz com que a relação entre as duas fique tão orgânica quanto deveria ser

Porém aqui é diferente, nós vemos essa relação entre os dois irmãos sendo construída, diferente desse filme onde nós temos que aceitar que esses personagens realmente se importam uns com os outros, além da família falsa construída pelo governo, e isso não acontece, se perde no quão raso o filme é. Outro momento que vemos isso acontecendo é quando o Guardião Vermelho vai conversar com a Yelena no quarto, e vemos o quanto ela acha ele um idiota, com suas histórias sobre um passado glorioso (ou nem tanto), e então ele lembra de uma música que ela gostava quando criança e pronto, conflito resolvido?  Como assim?

Entrando nesse assunto dos personagens, todos são completamente esquecíveis. Salvo a Yelena que se destaca pela atuação e não pela forma como foi construída, todo o resto é muito genérico. O Guardião Vermelho não muda em nada do começo ao fim do filme sendo usado apenas como alivio cômico que em boa parte do filme não funciona, até mesmo sua motivação sobre querer fazer algo maior pela pátria soviética acaba sendo jogada fora; a Melina, “mãe” de Natasha, acaba sendo um ponto totalmente aleatório na trama, que serve apenas para explicar como as viúvas são controladas agora, pra logo depois se tornar um recurso de roteiro chamando as tropas da sala vermelha para prender sua “família”, e quinze minutos depois se revelar como uma agente dupla em um plano bolado com a Natasha para eles se salvarem.

É incrível como os personagens aqui são tão sugestionáveis, não precisa de muito para convencer alguém a trair os vilões e ajudar a bolar um plano maluco sem perspectiva de sobrevivência. Aliás, e que vilão hein, genérico ao máximo, isso sem contar que a presença do Treinador nessa e sua revelação não fazem sentido algum, tinham tantos jeitos de fazer a Natasha enfrentar seu passado de frente, mas decidem fazer isso de forma literal e totalmente esquisita.

Acho que este é o primeiro filme da Marvel em muito tempo que termino de assistir frustrado. Tinham toda a liberdade para trabalhar um bom roteiro sem precisar se prender a futuras produções, mas preferiram construir a narrativa conforme sua famosa fórmula e, diferente de outros filmes considerados regulares do UCM, se adequar a ela matou seu roteiro. Ignorando a cena pós-créditos, o filme pode muito bem ser comparado a um Thor 2, e é bem preocupante estar no mesmo patamar de um dos piores filmes já feitos pelo estúdio.

Vitto

Após fracassar em conseguir uma armadura de bronze, decidiu escrever sobre cultura japonesa. De vez em quando sai algo bacana. Já te disse que tenho um blog?